Sábado, Maio 21, 2011

196. PROGRAMAS CURRICULARES

[Mestre na ESTC]

1. A IMAGEM

1.1 Imagem: polissemia do termo. A imagem icónica. Campo e fora-de-campo: escolher é eliminar. A imagem rectangular não é universal. A tecnologia condiciona a imagem.

1.2 A representação da profundidade.
A imagem, um simulacro. Sistemas de representação não ocidentais. A perspectiva renascentista. A superfície plana como espaço autónomo.

1.3 O trabalho da luz. Fontes físicas – fontes místicas de luz. A organização do espaço como elemento narrativo.

1.4 O instantâneo: uma nova maneira de observar. A fotografia “directa”. O olho móvel e disponível.


Sumário da primeira unidade didáctica da cadeira de “Introdução ao Estudo da Imagem”, do 1.º ano do Curso de Cinema da Escola Superior de Teatro e Cinema (Lisboa). Esta primeira unidade era da responsabilidade de António Reis.
É provável que este esquema base, ainda que com maior desenvolvimento, se repetisse em outras cadeiras leccionadas por António Reis.

***

«Quanto aos programas [curriculares] do António… eram sempre três linhas… Tentei várias vezes convencê-lo a desenvolver os planos de estudo dele, mas não consegui. Dizia-me sempre “isto chega perfeitamente”. (…) A ideia de fazer programas era pôr em causa a sua própria liberdade de “inventor de ensino”, e, portanto, recusou-se sempre a fazer um programa pormenorizado, fugindo completamente às normas».

«magistério intempestivamente oral»

«Embora tenha sido há bastante tempo,
lembro-me de uma pequena folha A4 com quatro pontos
que materializavam o programa que ele organizava num esquema,
e depois era seguido».

Alberto Seixas Santos,
José Bogalheiro
e Pedro Costa
(respectivamente)

in Moutinho, Anabela; Lobo, Maria da Graça (org.)
- António Reis e Margarida Cordeiro - a poesia da terra, p. 55, 57 e 64,
Cineclube de Faro, Faro, 1997."

Sexta-feira, Maio 20, 2011

195. MESTRE NA ESCOLA SUPERIOR DE TEATRO E CINEMA [ESTC]

[Mestre na ESTC]

António Reis foi professor (ou mestre, como preferia ser chamado) durante 15 anos na Escola Superior de Teatro e Cinema (à altura no Conservatório Nacional de Lisboa).

Iniciou a sua actividade lectiva na ESTC em 1977 com a cadeira de “Espaço Fílmico”.

Ao longo da sua vida como mestre de cinema será o responsável pelas cadeiras de “Análise de Filmes”, “História da Imagem” e “Direcção de Actores”.
Leccionou ainda, aos alunos do 1.º ano, a primeira unidade didáctica da cadeira de “Introdução ao Estudo da Imagem”.
Seguirá também muito de perto os exercícios filmados nos diferentes anos do curso de Cinema.

O seu último ano lectivo na ESTC foi o de 1990-1991, tendo falecido a 10 de Setembro de 1991.

Quarta-feira, Maio 18, 2011

194. EM BUSCA DAS SUAS AULAS...

[Mestre na ESTC]

“Sujeito porventura a ser desfigurado pelo esquecimento ou pela efabulação marginal estará o património magistral das suas aulas. Com diferenças segundo os tempos e os alunos, esse magistério intempestivamente oral terá tido registos na sua maioria irrecuperáveis. Um obstinado rigor seria, por isso, necessário para um levantamento de pontos axiais das suas lições”.

José Bogalheiro, director do Departamento de Cinema da Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC),
in Moutinho, Anabela; Lobo, Maria da Graça (org.) - António Reis e Margarida Cordeiro - a poesia da terra, p. 57, Cineclube de Faro, Faro, 1997.

Se foi aluno de António Reis ajude-nos a fazer o levantamento de que fala o Professor José Bogalheiro. Deixe a sua colaboração nos comentários ou através do email.

Domingo, Março 27, 2011

193. NA MORTE DE ANTÓNIO REIS

[Poesia]

António Reis, que morreu em Lisboa, em 10 de Setembro de 1991, pouco depois de completar os sessenta e seis anos de idade (nascer em Valadares, Vila Nova de Gaia, a 27 de Agosto de 1925[1927]), deixou o seu nome nas últimas décadas ligado sobretudo ao cinema, onde realizou uma obra de grande originalidade que terá os pontos porventura mais altos em Jaime, 1973 [1974], e Trás-os-Montes, 1976. Antes, porém, de se iniciar no cinema, como assistente de Manoel de Oliveira, em Acto da Primavera, 1963, e autor dos diálogos de Mudar de Vida, de Paulo Rocha, de 1966, já se tornara conhecido como poeta através de dois livros, Poemas Quotidianos, 1957, e Novos Poemas Quotidianos, 1960, reunidos alguns anos depois (1967) com mais alguns inéditos em Poemas Quotidianos, volume antecedido de um estudo de Eduardo Prado Coelho e incluído na que era então no país a mais prestigiosa colecção de poesia, a «Colecção Poetas de Hoje», da Portugália Editora. As duas recolhas poéticas que lhe deram na altura uma justa reputação, e que não representavam as suas primeiras incursões pelos domínios da poesia (à semelhança de outros autores, arredou da bibliografia o que se não identificasse com o que considerava ser o verdadeiro timbre da sua voz), vieram a público, no Porto, sob os auspícios dos «fascículos de poesia» Notícias do Bloqueio, de que se publicaram nove números entre 1957 e 1962. O Porto é, entre os fins da década de 40 e os começos dos anos 60, palco de uma intensa actividade cultural, de que, para além da edição das Notícias, se destacam, para nos cingirmos ao campo literário, a publicação em 1949 e 1950 da Colecção «Germinal», dos três fascículos de A Serpente entre Janeiro e Março de 1951, o aparecimento em 1953 da revista Bandarra, a qual tem nos períodos compreendidos entre Janeiro de 1955 e Setembro de 1959, em que se apresenta como revista «de artes e letras ibéricas», e entre a Primavera de 1961 e o Verão de 1962, correspondente aos quatro números da segunda série, os pontos de maior interesse, e ainda a publicação do que era, sem dúvida, ao tempo, o melhor suplemento literário da imprensa diária portuguesa, o Suplemento «Cultura e Arte» de O Comércio do Porto. Na vida cultural da capital nortenha, em cuja área metropolitana então residia e trabalhava (como empregado de escritório, rezam as notas biográficas que sobre ele existem em antologias de poesia), distinguia-se António Reis como uma «figura» particularmente «activa», de acordo com o belíssimo retrato que Paulo Rocha traçou, em texto publicado no JL, na semana seguinte à da sua morte (17.9.91).

A produção coligida no volume da Portugália em 1967, e que compreendia uma centena de poemas escritos entre 1952 e 1962, situa-se dentro de uma orientação realista com forte implantação junto dos poetas da geração de 50 que, por essa altura, se encontram radicados na área do grande Porto. Os poetas dessa tendência fazem mesmo parte, poderíamos dizer, de uma segunda geração neo-realista que se afirma em lugares como as revistas acima referidas, e na qual António Reis representa uma faceta intimista, tal como já acontecera com João José Cochofel relativamente ao primeiro neo-realismo poético, o que teve na Colecção «Novo Cancioneiro» o seu mais conhecido lugar de afirmação. A lírica despojada do autor de Poemas Quotidianos, sem deixar de fazer a denúncia da atmosfera opressiva que se respira no Portugal de Salazar («Não esqueço os mortos // Não esqueço os heróis // Não esqueço / o luto / das famílias // todos silenciosos // Denuncio / publicamente / a nossa cobardia // e quem mente»), detém-se sobretudo, distanciada do fôlego épico que atraiu muita da poesia que lhe é ideologicamente afim, no registo dos pequenos nadas de que, em sintonia com o que o próprio título sugere, se compõe o dia-a-dia na cidade – uma cidade que, simultaneamente, se ama e é fonte de sofrimento pelas «imperfeições e mágoas» que a desfeiam – daqueles que dificilmente alcançam a satisfação das necessidades mais imediatas («Depois das 7 / as montras são mais íntimas // A vergonha de não comprar / não existe / e a tristeza de não ter / é só nossa // E a luz / torna mais belo / e mais útil / cada objecto»). O poeta entra nas suas casas, aponta as carências que os atingem, comunga das preocupações que os afligem («Hei-de entra nas casas / também / como o luar // A ver as faltas de roupa interior / e de cama // os rostos preocupados / com os avisos da luz e da água // com a máquina de petróleo apagada / jornais nas paredes / e um pássaro na varanda / a cantar / ao lado de uma flor»). E percorre com um olhar terno e comovido esses interiores de casas de gente modesta, de existências apagadas mas carregadas de memórias, já então submetendo as imagens que vai captando a um princípio que se diria o da montagem cinematográfica («Hei-de entrar nas casas / também // como o silêncio // A ver os retratos dos mortos / nas paredes / um bombeiro um menino // A ver os monogramas bordados nos lençóis // Os vestidos virados / os vestidos tingidos / os diplomas de honra / as redomas // E a caderneta de Socorros Mútuos e Fúnebres // em atraso»).

Mas o poeta que se entrega, com a sua câmara, à captação dos espaços interiores e que os faz equivaler ao «espaço interior» criado nos próprios poemas, à interiorização, sem a qual nenhum universo lírico encontra ressonância junto do leitor («Um espaço interior / criei / nestes poemas // onde estalam os móveis / e os sentidos // onde as ideias / a meia-luz / respiram // e a vida / e as imagens / não se reflectem / só / vidros»), é também, e por excelência, o poeta do amor conjugal, dos dias preenchidos por uma intimidade partilhada; «Conheço / entre todas / a jarra que enfeitaste // têm o jeito / com que compões o cabelo / as flores que tocaste»; «Enquanto estudo / oiço-te na cozinha // sei o que fazes / o que pensas / sentes // Vês uma flor / no ovo da sertã // dás vida / a um peixe / o mar // mas o gosto / atraiçoa-te // e a maçã»). A este respeito, ficará como um dos momentos mais altos da nossa tradição elegíaca aquele poema em que António Reis fixou a funda melancolia e a dor sem consolo possível de que sempre se faz acompanhar uma mudança de casa («Mudamos esta noite // E como tu / eu penso no fogão a lenha / e nos colchões // onde levar as plantas // e como disfarçar os móveis velhos // Mudamos esta noite / e não sabíamos que os mortos / ainda aqui viviam // e que os filhos dormem sempre / nos quartos onde nascem / Vai descendo tu // Eu só quero ouvir os meus passos / nas salas vazias»).

No depoimento vindo a lume no JL, refere-se Paulo Rocha ao estímulo que para António Reis terá representado a colaboração que lhe deu na tradução dos 50 Haiku que publicou na Moraes em 1970, levando-o a retomar a escrita poética. Esperemos que se não tenham perdido os poemas mencionados pelo cineasta e que, em breve, possam ver a luz do dia. Ou que, pelo menos, algum editor se lembre de, sem demora, reeditar os Poemas Quotidianos, há muito esgotados. É a melhor homenagem que, enquanto poeta, se lhe pode prestar.

Fernando J. B. Martinho

Revista Colóquio/Letras. Letras em Trânsito, n.º 121/122, págs. 283-284, Jul-Dez 1991.

Sábado, Março 26, 2011

192. SEI QUE CHORAS

Sei que choras
muitas vezes
sozinha

e que lavas
o rosto

(Ah Onde
ando eu)

para a tua dor
não ser minha


António Reis - Novos Poemas Quotidianos, pág. 56, Porto, [1959].

Segunda-feira, Março 22, 2010

191. ANTÓNIO REIS NO "PANORAMA"

MasterALJ

"Depois de na primeira edição organizar a programação por temas, de pesquisar sobre as ferramentas do cinema documental português na segunda e de tentar descobrir como se trabalha no documentário na última edição, a 4ª Mostra do Documentário Português, que decorre de 9 a 18 de Abril, no Cinema São Jorge dá continuidade à questão levantada no ano passado, olhando para a produção dentro de paredes particulares: as da escola.
Perguntando «como se ensina o documentário português?», o PANORAMA decidiu ir visitar escolas e cursos, tentando perceber que contornos adquire o documentário nos diferentes estabelecimentos de ensino, e que problemas pedagógicos levanta àqueles que decidem tratá-lo como sua matéria exclusiva.
A Escola de Cinema ocupa este ano um lugar de destaque, não só pela temática da mostra, mas também pelo facto de ser retratada no tempo em que António Reis foi lá professor.
O PANORAMA que todos os anos homenageia a obra de um documentarista português — Percursos no Documentário Português — vai este ano focar-se em António Reis em colaboração intensa com Margarida Cordeiro. António Reis é a figura central e unificadora de toda a programação desta 4ª Mostra do Documentário Português, que é também, e como sempre, uma montra do melhor documentário produzido em Portugal no ano passado.
De António Reis e Margarida Cordeiro serão exibidos quatro filmes, em colaboração com a Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema: «Jaime»; «Trás-os-Montes»; «Ana» e «Rosa de Areia».
São 59 documentários, alguns deles em antestreia nacional, quatro filmes de António Reis e Margarida Cordeiro e ainda outras surpresas".

panorama

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

190. ANTÓNIO REIS - Postura cívica



O CASO DOS 5 REALIZADORES DESPEDIDOS

No dia 20 do passado mês de Abril, João Lima, secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Emigração, após um visionamento sumário da cópia de montagem do filme "Lisboa, 1.ª Página", resolveu ordenar diversos cortes, supressões e alterações, quer da banda de imagem, quer da banda do som. Pedro Amorim, José Bogalheiro, Rosa Coutinho Cabral, José Alves Pereira e José Lã Correia, autores do referido filme, recusaram-se a fazer as alterações ordenadas, já que, no seu entender, essas alterações iriam deturpar completamente o projecto inicial do filme (que havia sido anteriormente aprovado pelo secretário de Estado) e representavam uma ingerência intolerável na liberdade de expressão artística e uma violação dos direitos de autor.
Na sequência desta recusa, o dr. João Lima, procedeu ao despedimento dos cinco autores do filme.
Hoje, mais do que o relato dos acontecimentos, por várias vezes focados na Imprensa, interessa-nos a opinião polémica e o debate de ideias sobre este caso que, de forma alguma, se encontra concluído.

Um acto condenável
sob todos os aspectos

por António Reis*

Ao despedir, com uma "Shifer" (marca de caneta) os autores de "Lisboa 1.ª Página", penso que o dr. João Lima cometeu um acto condenável sob todos os aspectos. Precisará o seu Ministério, para subsistir, de mais emigrantes? Ou joga já com o desemprego para ter servos de confiança?
As vítimas de políticos prepotentes foram constituindo um povo marginalizado, lançado - pela borda fora - gota a gota, em torrente - a diáspora não é uma fatalidade lusíada: explica-se pelo fascismo.
Qual será a cultura cinematográfica do dr. Lima para não ter percebido o que pode afinal ser moeda corrente de expressão em cinema?
Outra pergunta: o dr. Lima, zeloso tecnocrata, censura alguns dos ignóbeis filmes que exporta para os emigrantes? Importa-se, porventura, do que representam e da alienação que disseminam? Ou convém-lhe a droga dessas imbecilidades para que os emigrantes não retirem o lastro ao barco com o qual lhe garantem o seu ordenado e o seu posto, que não é o de tarefeiro?
E é preciso que aqui fique, incontroversamente testemunhado: cinco dos camaradas despedidos, por brio picado, não têm, de facto, outras ocupações: têm sim, dr. Lima, dramáticas preocupações... históricas, por exemplo, económicas, culturais, portuguesas.
Um castigozinho para o dr. Lima: 8 dias apenas na Renault, na produção em cadeia...
Para um tecnocrata, é suficiente a lição.
________

* Cineasta, professor da Escola Superior de Cinema


Boletim da FAPIR (Frente dos Artistas Populares e Intelectuais Revolucionários), N.º 7, pág. 15, Ano II, Junho/Julho de 1978.

AGRADECIMENTO: Obrigado Professor José Alves Pereira por nos ter enviado este texto e nos dar a conhecer uma outra faceta de António Reis.

Terça-feira, Novembro 03, 2009

189. ANTÓNIO REIS E HOKUSAI

[Ensaios]

Apresentação de Hokusai
e um novo triunfo da “Guilde du Livre”
por António Reis

Há artistas tão necessários à minha vida, como a ternura humana, como o ar, como a água. Não ter ao alcance as suas obras, quando mo exige o coração e mo exigem os olhos (e tantas são as vezes), é sentir subitamente a vida suspensa (estado que a memória, como pode, vai iludindo e só atenuado pela certeza de saber que apenas me basta aguardar algum tempo para rever essas obras).

«O velho tolo do desenho», Hokusai, desde que o livro da «Guilde» me chegou às mãos, faz parte desses artistas. Obsessivamente. Tem razão Roy quando afirma ser a arte o caminho mais curto de um homem até outro... Para além do nome havia um país; um país com teatro, poesia, música, filósofos, vendedores ambulantes, lutadores de feira, samurais, violências – e o Yoshiwaras; um país com rios, aves, quedas-de-água e Sol... Para além do nome havia uma vida, vida cuja finalidade era o trabalho e o amor; objectos desse amor tu e eu; tu e eu bastava que amássemos a paz; paz para contemplar o Fuji-Yama ou para lançar, sem temor, as redes ao mar...

E já no tempo de Hokusai a arte era o caminho mais curto de um homem até outro: porque quando Hokusai chegava a qualquer reunião de artistas, de sandálias e envolto numa humilde capa de palha (como um camponês de Katsoushika), vencia o menosprezo geral com a sua arte; pois, a todos maravilhando, no papel em pousio, de súbito fazia nascer uma planta, uma ave cruzar o espaço, crescer uma vaga, a neve fluir, paira a lua, abrir uma flor, baloiçar um barco, rugir a tempestade, reflectir-se num lago o Fuji, um actor representar, pastar um cavalo, ou um gafanhoto deliciar-se com um fruto.

Aos que nunca ouviram falar de Hokusai e lhes estranharem o nome (como os artistas do seu tempo, a capa de palha e as sandálias), Hokusai já não poderá dar a conhecer-se desenhando, desenhando no seu belo jeito de semear – morreu a 10 de Maio de 1849 -: mas como os seus trabalhos se não perderam e este livro de «Guilde» reúne alguns dos mais significativos, a revelação, o diálogo e o encanto são na mesma possíveis.

Desta modesta apresentação não poderiam dispensar-se alguns elementos sobre o artista e a sua vida (só alguns elementos mesmo, porque embora o artista quase não tivesse abandonado o quarteirão de Honjo, não mais se terminaria); condensando Focillon, apontaremos alguns:

«Pelas suas origens e pela sua própria vida, Hokusai é um homem do povo. Por indiferença e talvez por gosto foi sempre pobre. Ele sabe o que vale a sua arte... Socialmente, seja qual for a sua fama, é o companheiro e o semelhante das pessoas simples. Ama os seus prazeres, participa das suas crenças e da simplicidade dos seus costumes. Numa época em que os artistas e os letrados vulgarmente se deixavam arrastar pela doçura de viver e pelas volúpias refinadas da raça mais refinada em prazeres que nenhuma outra. Então, as reuniões nocturnas, acompanhadas a vinho e a saké, prolongavam até de manhã a excitação de uma felicidade febril. Os mestres do Ukiyo-ye são parentes dos elegantes taikomati, homens de alta cultura e dum perfeito saber-viver que, por ofício, guiavam o estrangeiro pelo Yoshiwara e lhe diziam qual o preço e as virtudes profissionais das cortesãs célebres. A obra dos artistas dos Ukiyo-ye é uma longa exaltação dos prazeres permitidos – e dos outros. É invadida pela mulher, pelo seu perfume, pelas suas graças, os seus caprichos, os seus ardores, pela sua indumentária e pela sua nudez. Eles amam o luxo, porque envolve a volúpia de acessórios e raridades. E amam-no, porque o sabem fruir e dosear com rara medida. Sentado no meio das suas preferidas, Outamaro diz que tudo é vão, salvo a alegria das carícias e a curva dum seio belo. O príncipe dá o exemplo da dissolução mais delicada. Os escritores propagam-lhe o gosto e as receitas. A embriaguez dos sentidos é solicitada por uma obscenidade sedutora, e que se esconde apenas. No entanto, o camponês de Katsoushika, o homem da capa de palha, toda eriçada sob a chuva, passa com uma espécie de rudeza precoce. É casto, sóbrio, e os seus amigos verberam-lhe isso, como uma singularidade de mau tom. Mas ele não tem necessidade de se abandonar ao prazer. Não sendo nem um epicurista refinado, nem um mundano vulgar, nega-se a engordar ou a esgotar-se.

Homem do povo, pela sua capacidade de resistência e a expressão quotidiana da sua produção (que lhe permitiria legar à posteridade mais de mil pinturas, mais de quinhentos livros ilustrados e trinta mil xilogravuras, aproximadamente), é ao povo que ele se dirige sem vergonha, quando a miséria o expulsa de sua casa, e tem e fazer, por umas mãos-cheias de arroz, sobre o papel ou a seda que lhe estendam, prodigiosos esforços de desenhador ao vento. É que às pessoas da sua raça e da sua classe, ele não deve apenas as sãs virtudes, o equilíbrio moral e a coragem no trabalho, mas qualquer coisa desta destreza de artífice, desta virtuosidade manual, que lhe permitiam passar, sem fadiga, do infinitamente grande ao infinitamente pequeno, dos Dharmas gigantescos de Honjo e de Nagoya aos pardais microscópicos pintados num grão de trigo. Não são os passatempos de um Miguel Ângelo, mas golpes de destreza dum operário heróico e jovial que sabe sensibilizar o seu público da maneira mais própria e que lhe sabe agradar, porque a ele pertence. Hokusai conheceu o entusiasmo pelos estilos nobres, porém, não ficou por aí. Como os grandes artistas do Ocidente, consagrou-se às procuras técnicas, mas, cada vez que encontrou, não se fechou num contentamento egoísta, apressou-se a prodigalizar e a divulgar: daí os seus tratados e os seus métodos. O grande animador da multidão que passa é também o professor de todos. O homem que desenha com o dedo molhado em tinta, com um ovo, com tudo o que se queira, não acredita, sem dúvida, que o acúmen da arte seja a extrema dificuldade vencida, mas acredita que a arte é o triunfo sobre a matéria e que tudo é bom ao bom artista para exprimir a vida. Ideia muito popular e muito japonesa se nos lembrarmos dos engenhosos operários que fabricam, de nada, brinquedos encantadores e que, com um mínimo de elementos, conseguem as surpresas mais atraentes e mais raras, se nos lembrarmos dos oleiros que, colaborando com um deus, segundo a expressão de William Lee, põem ao fogo pequenas quantidades de lama amassadas com um polegar indolente e de lá retiram obras-primas.»

Quando os gravadores, na passagem para os blocos de madeira (e algumas vezes Hokusai se queixou disso) não comprometiam o espírito e a qualidade do trabalho do artista Ukiyo-ye, e não lhe alteravam as próprias formas, a impressão, como o fogo, também realizava o seu milagre; basta folhear atentamente o álbum publicado pela «Guilde», basta pôr de parte preconceitos e vícios (concretizados nas aberrações académicas), autênticos tabus de gostos e juízos, e estar atento a algumas das características técnicas da arte japonesa (como: arabesco decorativo, coloração pura sem modelo, perspectiva a duas dimensões, prática das cores planas, elevação das linhas do horizonte, enquadramento em ângulos emergentes, limite da escala de valores (utilizados como efeito e não como relevo), apontamento do modulado dos volumes por meios lineares ou por modelados breves degradados sem sombra, sugestão e não representação naturalista da terceira dimensão, predominância gráfica, aplicação de meios limitados... – fenómenos plásticos e técnicos tão importantes para a compreensão dos mestres do Ukiyo-ye (1), como Harunobu, Shunsho, Kiyonaga, Outamuro, Hokusai e escolas tradicionais de Tosa e Kano, como para a compreensão da arte moderna, de Manet aos abstractos, particularmente devedora à arte japonesa.

Conscientes da falta que é falar de Hokusai sem dar elementos pormenorizados acerca das causas que originaram a criação da estampa a cores (profundas transformações económicas e sociais, difusão da cultura pela burguesia e pelo o povo, difusão da Imprensa, paixão vivíssima pelo Kabuki), e bem assim de toda a apaixonante evolução do estilo Ukiyo-ye, desde Matahei e Moronubu a Harunobu,desde meados do século XVII a 1764, desde o estilo pintado, o sumy-ye (estampa monocroma, a tinta), o beni-ye (estampa a duas cores) ao nishiki-ye (estampa policromada), que prometemos tratar oportunamente, terminamos esta apresentação de Hokusai com um precioso depoimento seu, escrito aos 75 anos, a que a perspectiva do tempo sobre a sua morte e a sua arte, nos permite dar uma resposta:

«Desde os 6 anos, eu tinha a mania de desenhar a forma dos objectos. Pelos 50, tinha publicado uma infinidade de desenhos, todavia, tudo o que fiz antes dos 70 não merece ser considerado. Foi pela altura dos 73 anos que eu compreendi razoavelmente a estrutura da natureza verdadeira, dos animais, das ervas, das árvores, dos pássaros, dos peixes e dos insectos. – Por isso, lá pelos 80, terei feito mais progressos ainda; aos 90, penetrarei o mistério das coisas; aos 100 terei decididamente chegado a um estado de maravilha e quando tiver 110 anos, em mim, tudo será vivo. Peço àqueles que viverem tanto como eu, que vigiem se eu cumprirei a minha palavra. – Escrito com a idade de 75 anos por mim, outrora Hokusai, hoje Gwakio Rojin, o velho tolo do desenho.»

Hokusai morreu com 89 anos, perto da idade em que, segundo ele, penetraria o mistério das coisas... Sem atingir os 90, consegui-o Hokusai? Muito mais cedo ainda, mesmo? Não é inconsequência e generosidade responder afirmativamente e que os objectivos dos 100 e 110 anos também foram alcançados nas suas obras de arte essenciais, mas o «velho tolo do desenho» é que não concorda com isso; sempre, até morrer, severo ao extremo com o seu labor:

«Se o céu me concedesse ainda 10 anos...» «Se o céu me concedesse somente mais 5 anos de vida, eu poderia tornar-me um verdadeiro grande pintor» (último olhar do camponês de Katsoushika sobre a sua seara imensa – que não lhe importava imensa, mas viva, viva, para que as mãos dos homens a acariciassem com amor e com amor espalhassem, a seu tempo, as melhores sementes pelo coração de todos!).

__________

(1) Ukiyo-ye, significa «imagem do mundo transitório, em movimento». A arte do estilo Ukiyo-ye, de temática quotidiana, actual, opunha-se à arte pictórica clássica, «que se inspirando da doutrina Zen, portanto centrada sobre o eterno, não se impunha por tarefa representar as coisas deste mundo, mas visava perscrutar as realidades últimas (arte de carácter filosófico e profundamente religiosa)».

NOTA: Ilustram o ensaio de António Reis as seguintes obras de Hokusai: "A «Touribashi» (ponte suspensa) na fronteira das províncias nipónicas de Ettohu e Hida"; "O Fuji em Aoyama"; "Hokusai".

Jornal Comércio do Porto, Cultura e Arte - Orientação de Costa Barreto, Ano V, Suplemento n.º 6, págs. 5 e 6, de 14 de Fevereiro de 1956.

Sábado, Outubro 31, 2009

188. ANTÓNIO REIS EM TRÁS-OS-MONTES

[Recolhas]



TRÁS-OS-MONTES
por António Reis

NOTA - Do Boletim da Casa Guérin, extraímos, com a devida vénia, este texto do poeta António Reis sobre Trás-os-Montes, evocação de uma província que o ilustre poeta de «Poemas Quotidianos» ama e sente como poucos e através da qual (por Miranda, Rio de Onor, Curalha) tem feito a sua peregrinação de artista e estudioso inquieto, sobretudo como folclorista e como cineasta.

Vejo, outra vez, as fotografias que tirei em Trás-os-Montes. Quase todas mentem. Nenhuma dor intolerável nelas ficou. Nenhuma esperança. Qualquer raiz.

Trás-os-Montes seria para Paul Strang [Strand] ou Van Gogh, que chegavam a terras de fogo sem pressa, e só partiam exangues, com os sentidos destruídos. Seria para Miguel Torga, que foi criado por uma águia e nunca esqueceu o gosto de uma cebola com sal.

... porque contemplei fragas e a amplidão deixei.
Vi queimar florestas e as razões oculto.
Ouvi cantar as aves e o cristal perdi.

Fermentava o feno.
Voltavam a ramos os engaços.
O linho era erva, a amêndoa silêncio.

Como quem parte de uma sombra para um poema, e de uma folha guardada para a memória, parto de imagens fluídas para uma província perdida.

Nove meses de Inverno. Três de inferno.
E a Primavera [primavera]?

Bato a porta abertas. Ninguém responde.
Há colmo caído no chão do [de] sobrado. Azeite vertido, manhuços intactos.
Corro à fronteira seca e grito. Clamo. Nomes com geada.
Ninguém responde...

E os arados? Os arados deixados às portas das vossas casas, gravados à navalha nas portas das vossas casas?

Se me queres algo
Sal-me al camino.


Ao caminho? Só vejo penedia de chumbo, tresmalhada, estalada,
oh mirandeses!

Corvos. Corvos e águias. Águias e lobos.
E longe, o som de lã de um tamboril... pastora muda chamando o seu rebanho.

Quedos, quedos, cavaleiros!
El-rei [Rei] vos manda contar...


Somos vultos e estamos longe num cavalo tremedal.

Anda daí, se queres benir,
‘garra la capa e bamos.
El camino ié de todos,
la capa ié de nós ambos.


Mas a terra... quem vai fabricar a terra?
E ainda esta manhã ouvi, em Cércio, a Alvorada!

Tu não ouviste, em Cércio, a Alvorada...
ou cantigas de abaular; a cantilena da pedra.
Ouviste falar de erva no trigo,
a trovoada
e as pedras dos moinhos a caírem na água.

Deixais, só, D. Filomena, com um pente de oiro na mão!

Sonhas...

a D. Filomena é uma nuvem, um polvorinho de folhas.
Quem vês com pentes de oiro na mão? As mulheres vestidas de negro? As suas mãos pousadas no regaço têm cartas vindas de França.

Azedões em muralhas. Estevas cobrindo os castros.
Cerâmicas neolíticas na escuridão das grutas.

Em vão os juncos esperam ser cestos. Em vão as ribeiras esperam as moiras.
Nos olmos cavados não há tentações.

Talvez nos pombais haja amor ainda,
a cal seja um ovo
e um ovo uma ave...

..............................
..............................
..............................

É xisto de casas que apanho do chão. É uma tábua que prego e uma candeia que acendo. É uma talha que lavo, uma azeitona que corto.
Um vento que estendo.

É um baldio que escavo. Uma gadanha que afio. Uma encosta que subo e um tempero que lembro.

É uma trança que solto.
Um escano que fecho,
que não vendo,

e uma roca que fio...


ANTÓNIO REIS
Trás-os-Montes – Junho de 1969


Jornal de Notícias, Suplemento Literário, págs. 17 e 18, de 6 de Novembro de 1969. Entre [] apresenta-se o texto como se encontra no Boletim da Casa Guérin.

Sábado, Março 21, 2009

187. ANTÓNIO REIS NO ALENTEJO



O poeta António Reis em pleno Alentejo.

Jornal de Notícias, Suplemento Literário, pág. 5, de 4 de Agosto de 1957.

Quinta-feira, Março 19, 2009

186. OUVINDO ANTÓNIO REIS

[Recolhas]



OUVINDO ANTÓNIO REIS
o poeta do Porto
que foi ao Alentejo


Os poetas da cidade passam a vida às mesas dos «cafés», ouvindo-se uns aos outros, com aquela «pose» mais ou menos estudada e solene, que os botequins do Chiado tornaram tradicional.
Por ser assim, mais extraordinária se torna a aventura de António Reis, o poeta que foi à procura de Poesia viva e humana, autêntica e verdadeira, até à Província do Alentejo.
Foi e trouxe toda a poesia que encontrou, em flagrante, saindo da sua verdadeira fonte: a boca do Povo.
Admirável missão que um poeta podia propor a si mesmo, para a cumprir da melhor maneira: aderindo à mais pura essência da realidade humana, social e lírica.
Por isso o procuramos para lhe perguntarmos:

- Quais as poderosas razões que o levaram ao Alentejo?

Conhecer na intimidade o seu povo e a sua terra... Razões propriamente mais humanas e telúricas que artísticas - uma espécie de pudor e de respeito pelo sofrimento não me consentiam outros projectos. Mas afinal, conhecer na intimidade o Alentejo implicaria dominar essa atitude sentimental e tornar a comoção mais útil e mais digna. Assim me vi envolvido subitamente por rostos, corações, lágrimas, nomes, factos, ais, pragas, objectos, poemas e música. Assim me vi subitamente subjugado pelas formas da vida e da arte, registando amarguras e esperanças, desespero e sonho, beleza e morte... - dia e noite quase alucinado, incontido, com medo dos próprios sentidos esfolando-se como a pele...

- O que pensa fazer do precioso material que recolheu?

Entregá-lo a quem amar os homens e a beleza, para meditação, fruição e dor. Para tornar o Alentejo mais próximo de nós e nós dele. Para tornar mais consciente o nosso gosto pelo seu trigo, que na realidade não é como na cidade o comemos, branco, leve e fresco! Os poemas serão publicados em livro; a música será transmitida pela rádio e gravada em discos, possivelmente; quanto ao material de artesanato e humano, conjugado com a poesia e a música, constituirá assunto duma série de palestras que tenciono efectuar sobre o Alentejo em diferentes localidades.

- Acha o folclore e a etnografia alentejanos ricos de conteúdo e forma?

Receio responder porque sou apenas um amador e porque a minha aproximação do Alentejo foi sobretudo um acto de amor. Acto de amor que me fez sofrer e deslumbrar por grandes e pequenas coisas - talvez consideradas por terceiros sem interesse dentro do âmbito das especialidade apontadas. Ocorre-me, por exemplo, a importância que dei ao lume feito ateando uma bolota seca pousada num vidrito por meio de atrito duma pedra de isqueiro cravada num taco de madeira ($30 para um camponês era uma importância diferente que para um etnógrafo); ocorre-me também a importância que dei às brasas que iam pedir à forneira dum povo para o ferro de passar a roupa ou aos tabuleiros de carapaus pequeninos que ela assava, por favor, no forno do pão; ou às ovelhas morrendo com o volvo, de fartas, ao lado de homens secos; ou ainda aos cardos beija-mão que não deixavam as camponesas lavarem-se sequer ou pontear; ocorre-me, por exemplo, ainda, a importância que dei às crianças dançando agora uma moda em cadeia e logo um mambo; a um rádio numa praça pública semeando joio e propaganda diversa pelas almas; ao cartaz e ao plano do filme chamado «O Tesouro do Templo»; às expressões como «um homem escuro», «uma mulher ocupada», «sovar a massa», «brandura», para significar: um homem triste, uma mulher grávida, amassar, orvalho, que registei ternamente como um poema rico de invenção, metáforas e vivências populares...

- E a música e a poesia popular alentejana?

Sobre a música do Alentejo, Fernando Lopes Graça já tem dito, apaixonada e objectivamente, qual o seu valor e qual a tarefa a que seria necessário dar início sem demora, metodicamente, cientificamente, para recolher, proteger e vivificar um dos nossos patrimónios artísticos mais excepcionais. Escutar as suas palavras e os seus conselhos é o único caminho a seguir e o único juízo de valor seguro sobre este assunto. Sobre a poesia, espero dar uma resposta com as largas centenas de poemas recolhidos, abrangendo modas, cantigas, quadras, versos de pé quebrado e despiques. Mas podem servir de testemunho alguns dos exemplos coligidos para esta página.

- Têm recebido influências para bem ou para mal?

Evidentemente, que para bem. Para mal, só o meu desespero de apenas em condições dificílimas poder efectuar estes contactos (são 1.000 quilómetros ida e volta), tão necessários para os que conseguem levá-los a cabo, para os que ficam e para os que encontrámos.

Mais nada. Apenas uma quadra para os artistas portugueses, que ouvi cantar a um camponês do Baixo-Alentejo e que cito sem humor, antes solenemente:

«Ajudem-me que eu não posso
Cantar a moda sozinho
A moda está muito alta
E o meu cantar é baixinho.»


Jornal de Notícias, Suplemento Literário, pág. 5, de 4 de Agosto de 1957.

Nota: Na mesma página do Jornal de Notícias encontra-se um pequeno texto de Fernando Lopes Graça, "Versos de pé quebrado" de Joana Palma Neves (de 78 anos, camponesa), fotografias e um texto sobre os ceifeiros, "Líricas alentejanas" de António Joaquim Lança (cabreiro analfabeto, de 75 anos e nascido em Cuba) e ainda a "Oração das trovoadas" de Teófilo Alexandre (camponês).

Segunda-feira, Março 16, 2009

185. QUE FOI FEITO DE NÓS

Que foi feito de nós
Ah Clara nada invejes

todos mais ou menos
ficamos tolerados
e aguardando

receando como tu
o desemprego e a velhice

vendo
crescer
os nossos filhos sem sorrir


António Reis - Poemas Quotidianos, pág. 12, Porto, [1957].

Sexta-feira, Dezembro 05, 2008

184. «ANA» - Crítica de Luís Miguel Oliveira

[Ciclos da Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema]

ANA / 1982
Um filme de António Reis e Margarida Cordeiro

Seis anos depois de Trás-os-Montes, António Reis e Margarida Cordeiro regressavam àquela região para uma nova etapa do seu singularíssimo percurso cinematográfico. Como acontecia no filme precedente, o interesse de Reis e Cordeiro pelo território transmontano obedece tanto a uma lógica do concreto (filmar aquele espaço, compreender aquelas pessoas) como a alguma coisa de mais profundo, mais "subterrâneo" se quisermos, que passa por procurar ver em Trás-os-Montes a manifestação de uma hipotética ordem universal das coisas. Ou seja, Trás-os-Montes nunca aparece no filme de Reis e Cordeiro apenas como um espaço físico confinado e delimitado (se assim fosse, estaríamos no campo do estrito documentarismos, "rótulo" que não cola convincentemente nem a Ana nem aos outros filmes do casal), pelo contrário, o olhar dos cineastas transfigura a região (e as suas pessoas, as suas características, as suas práticas sociais) e fá-la aparecer como uma espécie de "eco do mundo" - como se fosse possível encontrar, ali, uma série de movimentos simultaneamente primordiais e eternos. Todo o filme vive do fluxo incessante entre estas duas dimensões: do lugar ao universal e deste de novo para o lugar, numa troca constante que não faz mais do enriquecer (de sentido e de poder emocional) cada um dos seus elementos. O próprio António Reis usou, em entrevista, o termo "dialética" para explicar o modo de estruturação dos seus filmes. E é uma palavra que fica particularmente bem, com tudo o que sugere quanto ao movimento interior que caraceteriza o cinema de Reis e Cordeiro, sem esquecer que esse movimento se regista não poucas vezes como uma articulação de contrários - poderíamos dizer que o cinema de Reis e Cordeiro é um cinema de "fusão", interessado em conjugar níveis diferentes de percepção da realidade (várias vezes no limite do conciliável) num mesmo plano. O abstracto e o concreto, ou o passado e o presente (para falar daquilo que é mais sintomático em Ana) coexistem de maneira que os torna indistinguíveis, e é nessa coexistência que reside uma das pedras fundamentais da poderosíssima visão do mundo (apetecia dizer: visão do princípio do mundo) exposta no cinema de António Reis e Margarida Cordeiro.

Que tudo isto é um dos motes essenciais deste filme em particular, eis o que se torna ainda mais evidente quando lemos o que Reis e Cordeiro disseram do nome (Ana) que lhe serve de título: "O nome de Ana é o equilíbrio e o desequilíbrio. A-A, o equilíbrio, e N, que ainda não desequilibrou mas a qualquer momento o pode fazer. (...) É uma coisa e o seu contrário". Tudo o que Reis e Cordeiro filmam em Ana se pode resumir a isto, a esta tensão resultante de um equilíbrio instável. Equilíbrio entre quê? Entre as pessoas, entre as coisas, entre os lugares, entre pessoas, as coisas e os lugares. Tudo é visto em Ana como se se tratasse de um imenso "puzzle" cósmico, onde a mais ínfima coisa ou o mais desapercebido gesto têm o seu posicionamento justo na composição de uma ordem universal que os transcende. Uma sensação de plena harmonia que se desprende da minúcia com que a câmara de Reis e Cordeiro enquadra as relações dos homens com a natureza ou os rituais familiares, por exemplo - como se tudo fosse da mesma ordem, como se essa ordem fosse algo de uno e verdadeiramente indivizível. E no centro, Ana, personificadora desse equilíbrio cósmico - é ela a garantia da sua imutabilidade, é ela que funde o passado no presente, é por ela e em torno dela que o mundo gira.

De uma beleza serena e imensa, Ana é um filme secreto (quanto do que tem lá dentro podemos, de facto, compreender?) e frágil. A impressionante comunhão que mantém com as coisas que filma é fruto da extrema e delicada sensibilidade do olhar da câmara de Reis e Cordeiro: raras vezes a profanidade inerente ao acto de olhar (ou de filmar) terá alcançado, como recompensa, uma tão pungente proximidade com o sagrado.

Luís Miguel Oliveira

Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema:
. "António Reis e Margarida Cordeiro: a poesia da terra", Faro, 22 de Novembro de 1997;
. "Fábulas e lendas", 31 de Julho de 2002.

Sábado, Novembro 15, 2008

183. «ANA» - Crítica de António Loja Neves

[Estreia no Forum Picoas, Lisboa - 6 de Maio de 1985]

MÃE ANA, MÃE TERRA

As emoções da infância que nascem de novo, sob outras formas, com outros rostos, outras.
O trabalho imenso para que as transmutações surjam e permaneçam na obra inteira e já independente de nós.


A. REIS E M. CORDEIRO

Como difícil se torna escrever sobre o objecto amado, o elemento da paixão! É comum dizer-se terem os poetas resolvido este problema, mas a verdade é que ele continua a limitar o comum dos mortais...
Nesta frenética velocidade do quotidiano em que vamos e que o cinema não só assumiu totalmente como corporizou e, por sua vez, mais fomentou no espectador, é quase uma atitude contra natura desacelerar e, ao ralenti, degustar um belo momento de criação, os seus espaços, os sons, a narrativa, a vida que dele se desprende. Daí que estremeçamos no receio de que este filme belo seja engolido na voragem que pouco deseja compreender, no trepidante olhar habituado ao desvio óptico de anos e anos de uma linguagem cinematográfica sempre igual, standardizada, de ritmo massificado, (a)celerada.
Em ANA o ritmo acontece por herança da própria vida e do ambiente que retrata, num constante e pendular ciclo anual que demarca as estações, os trabalhos, os nascimentos, os pequenos actos que perpetuam uma atitude de vida e quase que as mortes. Esse ritmo, transmontano ainda mais que campesino, não é dolente mas penoso, não preguiça mas reflecte a canseira dos trabalhos árduos feitos a pulso sem a participação da técnica que facilita e encurta o esforço.
É este o ritmo de ANA, diametralmente oposto ao tradicional ritmo cinematográfico. Exactamente por isso pessoas há, mais incautas e inquietas, que não resistem à cadência de ANA. Pouco avisadas e nada preocupadas em entender as causas deste ritmo desusado, longe do Nordeste não apenas geograficamente mas também sensorialmente, perdem o pulso ao filme não calculando tudo o mais que estão a desperdiçar. É verdade que o ritmo é lento mas porque espelha o elo umbilical que une a obra à realidade do isolamento da vida transmontana. Essa lentidão aumenta de significado quando admitimos ser ainda aquele o ritmo preciso da recordação, o tempo exacto do funcionamento da memória.

LOCALIZAR, UNIVERSALIZAR

Filme sobre um território, observação de olhar íntimo, é inevitável que transpareça a fatal lentidão de ceifar um campo de trigo sozinho e com uma simples foice. Certamente que a presença trepidante de um tractor, mais a sul, traria consigo outro ritmo, até pela presença de um som mais dinâmico, maquinizado, de compasso guiado por bielas e manivelas. Mas é também a expressão da regularidade de hábitos de uma população que não conhece sobressaltos nos seus actos do quotidiano, senão em momentos raros como os da presença da troupe de saltimbancos: e aí já se reconhece todo um outro fervilhar, uma dinâmica diferente, um desassossego.
Assim, a linguagem cinematográfica a que estamos por demais habituados sofre uma descodificação parcelar: deixa de ser o que tradicional e superficialmente representa no cinema vulgaris e passa a representar etimologicamente o tempo retratado, a memória que se deseja reflectir, os hábitos ancestrais e a lenta mas inevitável caminhada para a morte, já vizinha.
Torna-se evidente que estamos face a uma obra que se construiu exigente e reclama de nós - exigente ainda - a sensibilidade mais apurada e a inteligência mais exercitada; a nós que vamos tendo os nossos sentidos cada vez mais embutidos... e as desatenções catastróficas cada vez mais justificadas!
Mas errado está o raciocínio que afirme não se compreender ANA pela incompreensão (ou desconhecimento) de Trás-os-Montes: já vários autores avisaram para a lição de António Reis e Margarida Cordeiro ao conseguirem a verdadeira comunicação universal através de um tema que se suporia regionalmente localizado. Daí que o problema não resida, para esses espectadores, na falta de relação com Nordeste mas, sobremaneira, na falsa relação com a vida, no embrutecimento dos sentidos, na esclerose da sensibilidade.

UM ACTO DE (PRO)CRIAÇÃO!

Que parto de dor se vislumbra em ANA! Não pode ter sido de outra maneira quando todos os pormenores indicam um cuidadoso e requintado acto de amor, desde o primeiro sintoma da ideia até à consumação da cópia zero. António e Margarida são criadores intransigentes para quem nada pode dever-se ao acaso: a matéria dos tecidos, as suas cores, as rendas, as flores, os utensílios do décor, a própria criação de diversos animais em condições específicas para determinada utilização são uma atitude de criação que não pode deixar de transmitir à obra os seus reflexos e ao espectador sensível e despojado de preconceitos aquele choque provocado pela beleza das imagens e a acutilância dos sons.
Poetas dos sons e das cores António Reis e Margarida Cordeiro utilizam-nos magistralmente transformando-nos em elo de ligação entre planos, em suporte de elipses arrojadas, em despoletadores de acções essenciais ao desenvolvimento da obra.
O amarelo-pão, o verde-seiva, o azul de céu e água são colocados no filme com um profundo amor pelos locais retratados, pelas suas cores e pelo próprio acto de criar uma obra de arte a partir da natureza e do intrínseco amor por ela. Nesta paixão os autores vão como que pintando a película, ao mesmo tempo que a animam com a transposição da vida. Com a preocupação de despojar a sua obra de todo o lirismo doentio, os autores escalpelizaram a relação dos homens com o ambiente, não apenas no espaço nordestino como ainda no que se refere à milenar caminhada da humanidade, numa atitude que nos avisa: tende atenção, não presenciais um exercício de estilo mas o reflexo trabalhado da natureza e da relação do homem com ela!
Ao crítico diletante e desatento que sentiu a enorme falta de «(...) uma frugal conversa sobre o leiteiro, um pequenos escândalo familiar, o desafogo de um sorriso», (1) faltou-lhe sim a sensibilidade suficiente para perceber que a verdade do dia-a-dia não se esconde no filme nem na carga simbólica (sic) que cuidou nele vislumbrar, antes lá está presente em todos os actos das personagens, mais gritante e eloquente que uma retumbante discursata. Angustiado por não ver aqueles antes falarem, rirem e trabalharem, deixa passar despercebida a grande verdade: Mãe-Ana é a elocução mesmo quando acontece o silêncio, é a grande labuta, a mais difícil e árdua, aquela que se repete perpetuamente, sem alaridos ou chamadas de atenção, sem caixas altas de jornal mas que garantem a permanência da vida, de uma cultura, da experiência milenar do homem - tal como odre, a barca e os métodos que vinculam os povos da antiquíssima Mesopotâmia ou da actual Mirandela portuguesa...

FALAR DA VIDA, INTENSAMENTE

Se alguma noção tivesse que ser utilizada para definir este filme e cada um dos seus planos, seria indubitavelmente a do trabalho, a da labuta diária, a da luta pela sobrevivência contra a natureza agreste mas sempre em curiosa e íntima simbiose com ela. É a palavra trabalho que vem espontaneamente à ideia, a propósito deste filme! (2).
Mãe-Ana é a fiel guardiã de tudo isto, a certeza que nos fica de que continuamos, de que possuímos uma identidade e que levamos para a frente esse legado ancestral que nos codifica e nos faz ser tal qual somos. É essa presença e essa certeza que faz Louis Marcorelles afirmar (3): «Depois dela, pomo-nos a pensar, o mundo deixará de existir». Por isso e porque os nossos dias complicam e colocam em dúvida a transmissão desse legado...
O urbano tagarela, aldrabão da língua, dificilmente atentará nestas verdades. Daí a dissonância desta banda sonora com o trivial a que nos acostumou o mais cinema que por aí passa. Muito para além de nada deixar ao acaso, a banda sonora foi escrupulosamente trabalhada, preparando o espectador para a imagem e complementarizando-a quer na sua presença sonora quer na ausência do som (silêncios exactos e significativos, exigindo do espectador que ouça, que esforce o seu ouvido preguiçoso e tão mal tratado por dezenas de anos de crimes praticados por via das bandas sonoras repletas de maldades). A própria música não existe enquanto artifício, não aparece quando o autor não sabe o que meter ou entende que a imagem necessita ser urgentemente reforçada. Em ANA isso não acontece: a música só lá está quando dela se sente a absoluta necessidade.

A ESSÊNCIA DO CINEMA

A dialética do som e da imagem possui em ANA um exemplo notável que será certamente objecto de estudos teóricos num futuro.
É comum dizer-se que os filmes de António Reis e Margarida Cordeiro são uma feliz simbiose do documentário com a ficção. São mais do que isso. Se simbiose existe, ela está exactamente nessa alquimia difícil do gesto sábio e raro de interceptar duas sensibilidades, duas atenções face à vida, duas experiências e dois percursos. Duas pessoas que, identificando-se em tantos aspectos e partilhando de muitos momentos importantes, batem em cadência, uníssonos mas não necessariamente com um mesmíssimo pulsar.
O que é extraordinário neste filme é que nos encontramos sempre diante de um equilíbrio que sentimos efémero e frágil, precário como o é o fio da memória, mas que jamais é quebrado. António Reis e Margarida Cordeiro vencem a batalha com uma segurança que nos maravilha. Obra particularmente exigente, sem relação directa com qualquer escola ou moda cinematográfica, sem paralelo na produção mundial actual, ANA vai ficar na História do Cinema. Deixando de lado a pequenez do pensamento local que nega grandeza e importância a tudo o que produz de bom a terra portuguesa, não podem restar dúvidas de que ANA é um marco inamovível na história, já longa de oitenta anos, da cinematografia mundial.

António Loja Neves
______
NOTAS
(1) A. Cabrita in JORNAL DAS LETRAS de 5 de Junho de 1984.
(2) CAHIERS DU CINEMA, Outubro 1982.
(3) Louis Marcorelles in LE MONDE de 8 de Setembro de 1982.

Revista Cinema, n.º 8, págs. 14-16, Verão de 1985.

Sábado, Junho 07, 2008

182. «ANA» - Crítica de Eduardo Prado Coelho

[Estreia no Forum Picoas, Lisboa - 6 de Maio de 1985]

ANA
de António Reis e Margarida Cordeiro

Ana significa harmonia, mas também cisão, distância insuturável do mesmo ao mesmo. E, por isso, necessidade de transporte para cobrir todas as distâncias. A conversa sobre barcas tem essa função: abrir um fundo metafórico sem contornos precisos - na medida em que, utilizando-se a metáfora do transporte, se deve ter em conta que o transporte é a essência da própria metáfora. Ana é, por um lado, um cosmos; mas é, ao mesmo tempo, o caos. A origem não é apenas harmonia, mas vento demencial. O sono não é apenas repouso, mas queda e confusão. O leite converte-se em sangue (são os dois pólos que sustentam o filme). Estamos, como diria Rilke, perante o «círculo da evolução total» - o que é indiscritível: «Mas isto: conter a morte, / a morte toda, ainda antes da vida / tão docemente contê-la e não ser mau, / isto é indescritível». Ou, se preferirem isto é Ana.

Eduardo Prado Coelho

Jornal Expresso, Revista-Cartaz, pág. 4-R, de 8 de Junho de 1985.

181. «ANA» - Crítica de João Lopes

[Estreia no Forum Picoas, Lisboa - 6 de Maio de 1985]

ANA
de António Reis
e Margarida Cordeiro

São raros os filmes em que a organização das formas e dos sons é rigorosamente coerente com o sistema de valores do mundo que o filme constrói. É o que acontece nalguns filmes de Ford, Ozu, Rohmer. É o que acontece neste filme de António Reis e Margarida Cordeiro. Dessa coerência desprende-se uma enorme sensação de paz. Claro que isso pressupõe da parte do espectador uma atenção mais profunda, uma disponibilidade para deixar que o tempo marcado pelo seu relógio seja substituído pelo tempo do filme. Um tempo enganadoramente lento (a lentidão só existe quando o tempo é desperdiçado), pois é apenas o tempo necessário para que o espectador descubra o drama de cada imagem. E o drama do tempo que passa.

NOTA

A Comissão de Qualidade decidiu que este filme não merecia ser classificado como «filme de qualidade». Mais uma vez, como no recente caso de Paulina na Praia, de Eric Rohmer, essa decisão atinjiu um filme sobre cuja enorme qualidade parece existir um completo consenso (até em Portugal onde neste momento é rara a unanimidade crítica). Mais uma vez alguns elementos dessa comissão demonstraram não compreender um filme que considera o especatdor como um interlocutor inteligente, mais uma vez tornaram evidente a sua incapacidade de apreciarem a beleza, quando ela é um pouco mais subtil (o que os qualifica não para membros da Comissão de Qualidade mas para o júri do concurso de Miss Portugal). É urgente rever os critérios e a constituição desta Comissão de Qualidade. Felizmente parece ser também um tema sobre o qual há consenso.

João Lopes

[A «Comissão de Qualidade» da Direcção Geral de Espectáculos era constituída por: Eduardo Prado Coelho, João Lopes, José Matos Cruz e Lauro António (críticos); António Lopes Ribeiro (realizador), Nataniel Costa (Ministério dos Negócios Estrangeiros), Yvete K. Centeno (escritora), Pedro Loff (Ministério da Justiça), Alberto Vaz da Silva (advogado), Breda Simões, presidente (psicólogo) e Lima de Freias, vice-presidente (pintor)].

Revista Grande Reportagem, pág. 7, de 17 a 23 de Maio de 1985.