quinta-feira, setembro 08, 2005

098. A POESIA DE ANTÓNIO REIS - Texto de Eduardo Prado Coelho (incompleto)

«Tout poète des meubles – fût-ce un poète en sa mansarde, un poète sans meubles – sait d’instinct que l’espace intérieur à la vieille armoire est profund. L’espace intérieur à l’armoire est un espace d’intimité, un espace qui ne s’ouvre pás à tout venant…»

Gaston Bachelard
(La poétique de l’espace)


O que de mais desagradável se encontra naquela muita poesia incipiente que habitualmente lemos talvez seja o gosto que ela tem de se qualificar como poesia, de descaradamente proclamar que é poesia, e, mesmo, que é a poesia. Muito simplesmente – não é. Ou melhor, se toda a linguagem em arte é linguagem qualificada, e, portanto, qualitativamente diferente da linguagem comum, o certo é que a poesia que, logo de entrada, se afirma como sendo o que pretende ser, a poesia que duplamente se qualifica, quase sempre acaba por se perder. Servirá talvez como promoção social (e, por conseguinte, como factor de estabilidade dum qualquer sistema inaceitável de promoção social), como forma de habitar os privilégios de um mundo de cultura; servirá certamente, como manifestação frustrada dum desejo de comunicar, estabelecendo, no anonimato do papel, os laços duma cumplicidade possível. Mas não é poesia – e isso custa. Nada de mais desolador do que a mediocridade literária, cumpridora, modesta e submissa, derramando-se em aluviões de palavras perdidas, incapaz de exprimir com autenticidade um grito ou aventura e repetindo, como quem usa um manual de cartas de amor, fórmulas duma sensibilidade entorpecida. Porque essa poesia – a que o não é – tem o mais grave dos defeitos literários: acredita até à imbecilidade no valor das palavras. Embebe-se delas como quem ainda quer viver – e não vive.

Demasiadamente vivemos entre palavras. Com elas discutimos, ainda húmidas e ensanguentadas, com elas escrevemos o que tantas vezes apenas é mentira e inutilidade. Com elas percorremos, em prodigiosa erudição, labirínticas investigações sem limites (datas, fontes, influências) até depararmos com o vazio das pequenas verdades: inventários de poeira. Quem permanece dentro das palavras a todas justifica: nenhuma se perde, nenhuma se ganha, e somam-se apenas. Por isso se repete: consideremos a especificidade da literatura, as suas leis inalienáveis, a sua força pura e livre. O que está certo, o que é verdade. O que não está certo, o que não é verdade. Ou melhor: o que está certo e é verdade apenas porque se escreve e lê, apenas quando se escreve e lê. Só quando chegares ao outro lado, ao lado de fora, a essa mudez de alarme onde se apaga ainda a nitidez dos rostos e se enlouquece por entre gestos cicatrizados, aí descobrirás as razões: só em função do silêncio existe uma ética da palavra.

Atravessamos nós uma rua e quantas vezes um poeta nos espera, ansioso e feliz. Agressivamente, autoritariamente, é como fere este orgulho de escrever.
Não se assiste a um recital de poesia, onde os poetas se lêem e ouvem aplaudir, sem um iniludível mal-estar, um insuportável constrangimento. E se me dizem «não posso viver sem escrever» ou «a literatura é a minha vida», e nos dizem tudo isto no tom engomado das palavras decisivas, apetece perguntar, raivosamente perguntar, como podemos julgar possível, simplesmente possível – habitável, aceitável, suportável – a vida dos outros: dos que não escrevem nem mesmo sabem o que para nós é a literatura.

Falemos pois de António Reis. O que atrás ficou dito é muito importante para lermos a sua poesia e não a recusarmos numa primeira abordagem. António Reis é um poeta para quem a poesia nada tem de privilégio: é apenas aquele mínimo que permite existir, sobreviver, com esperança e dignidade. E por isso a sua poesia quase não chega a aparecer, a ser, quase se reduz a um murmurar sem voz. Para António Reis, toda a poesia emerge do silêncio, do silêncio que antecede o poema, do silêncio que o envolve, do silêncio da morte.

Alguém tem de morrer
(sente-se)
Ah
mas uma criança não
nem um homem
Pense-se
ouvindo o rumor
do coração.

É isto: só este silêncio desolador consegue revelar ao homem o bater do coração – a vida irredutível. Há sempre um esforço para quebrar o silêncio no mundo poético de António Reis. E quebrar o silêncio não é apenas dizer palavras, é sobretudo fazer da palavra-que-é-falada uma palavra-que-fale, é sobretudo desemudecer a banalidade dum quotidiano exangue. (...)

Que nos diz este silêncio? Fala-nos da mutilação do homem numa dimensão essencial da sua existência: a palavra.
Não podemos iludir a dificuldade: não há uma poesia do silêncio. Apenas há uma poesia que se opõe ao silêncio, uma poesia como antítese (porque a síntese seria uma palavra restituída à sua dignidade quotidiana). Mas, se à fala transbordante que caracteriza o mundo dos privilégios corresponde uma poesia palavrosa e tagarela, à palavra-apenas-falada na mudez do dia-a-dia corresponde uma poesia muito próxima do silêncio – é fácil reconhecê-la na obra de António Reis. E não podemos também ignorar que esta poesia tão pouco poética (e por isso pouco acessível na sua simplicidade) põe em causa o mundo da cultura. «A cultura é culpada na medida em que é, directa ou indirectamente, um meio de explorar o trabalho: são aqueles que sabem e que falam bem que ordenam, que empreendem, que correm riscos (porque uma economia de mercado é uma economia de cálculos e de riscos); são precisos "intelectuais" para fazer a teoria do sistema, ensiná-la, justificá-la aos olhos das próprias vítimas», escreve o filósofo Paul Ricoeur. E acrescenta: «Qualquer homem que pensa e escreve, sem se sentir incomodado no seu estudo ou investigação por um regime em que o seu trabalho é negociado como mercadoria, deve descobrir que a sua liberdade, que a sua alegria estão apodrecidas, porque são a contrapartida e, de longe ou de perto, a condição e o meio dum trabalho que outros fazem sem liberdade nem alegria, porque o sabem e sentem tratado como coisa» (Paul Ricoeur, Histoire et Vérité, Ed. du Seuil, Paris, pp. 211-212).

É isso que explica, creio, essa redução da poesia na obra de António Reis – tentativa de desmistificação e denúncia, portanto.

Na cidade onde envelheço
não há brisa
há vento
A brisa é para o amor
e para os cabelos
Na cidade onde envelheço
a roupa tem de secar
durante a noite
os operários levantam-se cedo
e o seu amor é simples
e no trabalho.

Em António Reis, toda a poesia emerge do silêncio – processo difícil, lento, convulsivo. Porque se trata dum silêncio tenebroso, feito de cegueira e rouquidão, feito de dias alucinadamente repetidos, feito de esgares apenas – esse silêncio de pedra que é o quotidiano de muitos.
E cumpre-nos apontar a coragem de António Reis. Porque há coragem em suportar e assumir a ambiguidade da poesia quando tudo a torna impossível: poesia é sempre sinal de que há algo de supérfluo (e por isso é natural, é natural uma palavra desviada da sua utilidade imediata) e sinal de que algo nos falta (e por isso não nos basta, ainda nos não basta a palavra essencial, reduzida ao seu valor prático). Ora a poesia a que estamos acostumados, reconhecendo embora a existência desta tensão inevitável, acaba sempre por escolher o pólo do supérfluo (mesmo que seja para declarar o seu remorso): é poesia feita de palavras escolhidas entre palavras, é poesia da fala humana e criadora.

A grande coragem de António Reis consiste em escolher o pólo oposto, e dar-nos uma poesia feita de palavras arrancadas à mudez, uma poesia de silêncio esgarçado. Talvez seja por isso que o leitor se sente, de quando em quando, desiludido. António Reis é um poeta corajoso porque continuamente afronta o risco de ver a sua poesia diluir-se em palavras esboroadas, em silêncio asfixiante, em vazio. Uma luta se trava em cada poema, dolorosa e decisiva. E note-se: porque a sua poesia não é expressão de privilégio nem gratuitidade, o que em cada poema de António Reis se joga não é apenas a poesia, mas a dignidade e o sentido duma existência. Liberdade ou morte (dilema forçoso, como adiante se refere). (...)

Um dos elementos fundamentais do mundo poético de António Reis: a obsessão da imobilidade. É preciso deter as coisas, fixá-las, emoldurá-las. É preciso que desse afundamento no vazio que é o quotidiano fiquem imagens muito nítidas do que foram os rostos e as coisas. Muitos poemas de António Reis são enumerações de objectos, porque é nomeando-os que o poeta os completa, recupera e cristaliza. No interior da casa, não há propriamente actividade, mas apenas intemporalidade.

Enquanto
em
silêncio
tu
ponteias
escrevo
no tempo
o teu retrato

(...) Este gosto pelo tempo congelado exprime-se, muitas vezes, por versos interrompidos ou truncados com que o poema termina. O poema é sempre breve, fugaz, uma iluminação difícil que, significando a imobilidade, se deve reduzir ao mínimo para que a não destrua. O início dos poemas mostra-nos que há sempre algo antes que já era poema (e que funciona como inspiração para o poeta), mas ainda não era palavra, e que o poema é somente um modo de concretizar e objectivar, por alguns instantes, essa tensão intolerável criada por uma imobilidade mais profunda.

A poesia tem portanto um papel bem definido: criar (ou manter) imobilidade. Ou ainda: a poesia é uma forma de não gritar. E não pensemos que tal imobilidade anula os gestos: transforma-os em gestos parados, carrega-os de sonambulismo, desenha-os com límpida serenidade.

O meu repouso és tu
ao fim da tarde
enquanto secas o cabelo
e te penteias
com o sossego de uma asa
e as janelas brilham
como salinas
suspensas

Liberdade ou morte, escrevi. O dilema está posto e é preciso optar. Contudo, a poesia de António Reis é, muito conscientemente aliás, poesia de alienação, porque nela a liberdade é morte (paralisação, imobilidade), é negação do dinamismo criador e construtivo da vida. Poesia de alienação é portanto aquela em que a poesia e a morte convergem num só espaço de existência, conservando-se a vida vivida como morte da liberdade e tornando-se a poesia (não vivida) como liberdade para a morte. (Liberdade que define o homem, sempre que toma consciência de si, mesmo que seja em circunstâncias em que todas as saídas estejam fechadas e apenas reste uma última escolha: aceitar a vida ou morrer). (...)

Eduardo Prado Coelho

"Estudo-prefácio" in Reis, António - Poemas Quotidianos, col. Poetas de Hoje, Portugália, 1967

NOTA: Este texto foi retirado de Moutinho, Anabela; Lobo, Maria da Graça (org.) - António Reis e Margarida Cordeiro - a poesia da terra, págs. 46-48, Cineclube de Faro, Faro, 1997. Encontra-se incompleto! Não conseguimos encontrar na Biblioteca Nacional (Lisboa) a obra de António Reis - Poemas Quotidianos, Portugália, Lisboa, 1967 (col. «Poetas de Hoje»), pelo que não pudemos completar o texto. Se alguém possuir o texto completo... e quiser fazer o favor de o enviar... desde já muito obrigado.