sexta-feira, janeiro 27, 2006

135. "TRÁS-OS-MONTES" - Crítica de Mário Dionísio

[Estreia no cinema Satélite, Lisboa - Sexta-feira, 11 de Junho de 1976]

"Trás-os-Montes" um acto de militância autêntica

É tristemente sintomático que um filme como Trás-os-Montes tenha passado despercebido, já não digo do que se chama grande público, mas daquele outro, ao que parece muito vasto, que se diz empenhado na transformação deste país. Ou quase só tenha sido passageiramente referenciado em escritos e conversas mercê da violenta reacção que provocou na terra que retrata e da qual o menos que se poderia esperar era tê-lo recebido com o mesmo amor com que visivelmente foi criado.
Não foi numa salinha modesta de algum bairro afastado que Trás-os-Montes passou, mas numa sala bem conhecida, no centro da capital. Aí se estreou com dois terços da casa, aí foi exibido alguns dias para cadeiras desertas, daí quase chegou a desaparecer no meio da maior indiferença. Dum cinema à porta do qual se vendem jornais e revistas que tanto falam da reforma agrária, mas não tanto pelos vistos como seria necessário ou não de modo que fizesse acorrer o público a ver um filme que tem muito mais relação com ela do que pode parecer aos que supõem, para usar uma frase célebre, ser possível fazer crescer a planta puxando-lhe pelas folhas.
Que caciques prontamente aproveitem os ventos de feição e facilmente arrastem populações que têm nas mãos para o crime de insultarem e ameaçarem o que pode abrir-lhes os olhos e a sensibilidade para a sua miséria e para a sua grandeza, não é isso que espanta. Quando se impedem certos candidatos de falar, se fazem explodir bombas em locais de trabalho político ou de cultura, é exactamente do mesmo que se trata. Mas que Revolução é esta, em que tão pouco se atenta no que poderosamente contribui ou poderia contribuir para acordar a consciência daqueles que têm de fazê-la? Em que tão vagamente se estimula e se defende a revolução de um povo na sua existência mais concreta e mais profunda, de que seria forçoso partir?
Tive o prazer de ver o filme de António Reis e Margarida Cordeiro ainda na fase de montagem. Vi-o, depois de pronto, duas vezes. E, como sempre acontece com as grandes obras, o encantamento não se esgotou nem está em vias de esgotar-se. Porque há nele um manancial de humanidade na verdade inesgotável. Da primeira à última imagem, Trás-os-Montes é um acto exemplar de rigor e de honestidade na pesquisa, de coerência e sobriedade no discurso, de militância autêntica, de solidariedade, de adesão interior. Que em vão se buscaria numa fala ou num plano demagogicamente afirmativos duma superficial exortação à acção, que por isso mesmo não age. É no filme todo e no que ele em nós desperta que essa exortação existe, sem uma pausa nem qualquer concessão, desde o mergulho nas raízes seculares à angústia presente dum povo que obedece a leis que não entende e em cuja elaboração nunca participou: desde a Cantiga da Garvaia ao comboio que rasga as montanhas com o seu grito despedaçante e tudo o que ele denuncia. E a grande voz dessa exortação é a da própria beleza lucidamente construída - na imagem, no som, na cor -, uma beleza que encanta, sim, mas que, encanta, mobiliza. E é essa a chave de toda a arte revolucionária.
Há quem o não veja? Assim parece. Há quem suponha que a beleza vem depois, que a arte vem depois. Mas depois de quê, se a Revolução, ou é transformação dos homens ou não é mais que caricatura de mudança? Se os homens só transformam transformando-se e nessa transformação a acção da cultura, nomeadamente a da arte, tem uma função insubstituível, não posterior mas simultânea?
Devo três surpresas a António Reis, todas elas intimamente ligadas a um longo itinerário de adesão aos explorados, aos desprezados, aos criminosamente esquecidos e ao impenitente fervor de contribuir para revelar uma grandeza oculta que é a raiz da sua força possível. Da força indispensável.
Uma, há perto de quinze anos, que se chamou Poemas Quotidianos; outra, mais recente, que foi o seu inquietante e protestativo Jaime; outra, enfim, que é este Trás-os-Montes, filme de importância excepcional, não só no panorama português, e impossível de esquecer para quem insista em pensar a nossa actualidade em termos de Revolução.

Mário Dionísio

Jornal Expresso, Revista, pág. 22, de 25 de Junho de 1976 (secção "Alternativas", coordenação de Helena Vaz da Silva)

1 Comments:

Anonymous Diana D. said...

A Associação Casa da Achada - Centro Mário Dionísio já tem um site na internet que reúne informações sobre a actividade e os arquivos do Centro e sobre a vida e a obra de Mário Dionísio.

Porque a sua consulta é útil e porque irá sendo actualizada - até à sua inauguração (em 29 de Setembro de 2009) e depois ao longo do tempo - use-se e abuse-se de visitar esta morada:

http://www.centromariodionisio.org

1:45 da tarde  

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