domingo, setembro 12, 2004

020. "ANA" - Crítica de Jorge Leitão Ramos

O cinema de António Reis e Margarida Cordeiro começa aqui a afastar-se de qualquer inteligibilidade realista, de qualquer «história», para mergulhar no pleno território da poesia.
E poesia, sabe-se, é aquela zona onde se pressupõe uma de duas coisas: ou há um espaço branco e virgem que essa poesia povoa de raiz; ou, ao contrário, se dá como axioma uma empatia entre o texto poético (fílmico) e o imaginário do sujeito-receptor. Em qualquer dos casos avulta no texto poético uma violência que recusa meias-tintas.
Ana é, em termos de cinema, um projecto assim. Ele não inventa nem espaços, nem pessoas, nem lugares, inventa um olhar, um ritmo, uma pulsação.
Em Trás-os-Montes uma velha mulher preside à renovação da vida e defronta a morte; a «história» do filme é só esta. Mas da rarefacção de coisas a contar fazem António Reis e Margarida Cordeiro uma espécie de ritual onde o cordão umbilical das culturas milenárias, da casa, dos gestos, da terra, das pessoas, é um só. Há uma celebração belíssima e secreta, onde nos envolvemos – ou não.

Jorge Leitão Ramos - Dicionário do Cinema Português 1962/88, pág. 35, Editorial Caminho, Lisboa, 1989.

Agradecimento: ao Mar Salgado, ao Ma-Schamba e ao Sebenta pelas palavras e pelos links; muito obrigado.

2 Comments:

Blogger Poliana said...

Não conhecia o cineasta António Reis. Infelizmente no Brasil quase 90% do espaço é destinado à filmes americanos, só em festivais ou em eventos, muitas vezes fechados temos a chance de conferir outros que não o padrão do mercado, por isso, achei ótima a sua idéia, mesmo sem acesso aos filmes do cineasta, temos acesso a quem foi, as fichas dos filmes e algumas imagens (que servem também, para nos deixar com água noa boca)

1:38 da tarde  
Blogger BIBLIOTECA ESCOLAR / CENTRO DE RECURSOS EDUCATIVOS said...

Obrigado Patrícia.
Na verdade, pelo que sei, "Trás-os-Montes" foi exibido no Brasil, na II Mostra Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, em 1978, sendo então considerado "sem dúvida um dos mais belos filmes" da Mostra (Jornal "O Globo" - crítico cinematográfico Fernando Ferreira) e "Ana" foi exibido no Festival de São Paulo, mas não sei em que ano.
Espera-se e deseja-se o contributo dos leitores para ajudar a esclarecer a presença do cinema de António Reis no Brasil.

8:00 da tarde  

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