quarta-feira, janeiro 25, 2006

134. "TRÁS-OS-MONTES" - Crítica de António Pedro Vasconcelos

[Estreia no cinema Satélite, Lisboa - Sexta-feira, 11 de Junho de 1976]

As leis de Kafka

Chamfford escreveu um dia, com o cinismo olímpico com que se defendia das agruras e dos dissabores que a vida lhe tramava, que era preciso escolher entre «amar as mulheres ou compreendê-las». Quem tomou à letra este desabafo arriscou-se a não compreender muitas mulheres que julgou amar e a não amar muitas mulheres que julgou compreender.
É cómodo optar pelos sentidos ou pela razão em lugar de procurar um sentido à razão e uma razão para os sentimentos.
Creio que, com o cinema esse divertimento frívolo de espectadores ociosos se passa um pouco o mesmo e que nos arriscamos a não amar muitos filmes por não tentar compreendê-los e a não compreender outros por nos deixarmos seduzir pelas graças exteriores com que eles se vestem para nos enganar. Vai-se ao cinema como se vai às mulheres. Tais prazeres, penso eu, são prazeres de preguiçosos.
Eis o drama com que se debate quem como António Reis e Margarida Martins Cordeiro fez um filme com amor e inteligência e a quem muito do público vota uma paciente desatenção. Eis, de um modo geral, o que sucedeu ao melhor cinema português sobretudo depois do 25 de Abril. Refiro-me a «Benilde» e aos «Brandos Costumes» porque pela qualidade e importância do resto não ponho as mãos no fogo. Para amar um filme como «Trás-os-Montes» é preciso antes de mais compreendê-lo e para o compreender é preciso dispor-se a amá-lo.
O drama é que, depois do 25 de Abril (as razões ficam para outra altura) nada foi feito para encontrar outras formas de circulação dos filmes portugueses que, sem os isolar, lhes permitam encontrar um novo espaço e um novo público que não esse dominado pelos distribuidores e exibidores cuja única regra, como não pode deixar de ser em sistema capitalista é, já o escrevi, o «lucro máximo e o sucesso imediato». A não ser o «São Luís», emergência que salvou muita coisa, e outras iniciativas pontuais do actual Director Geral da Acção Cultural, nada há que permita que um filme português como um filme de Straub, de Godard ou de Duras, tenha uma chance razoável de chegar ao público.
Os distribuidores e exibidores, de um modo geral, por melhor que seja a sua boa vontade («ne firons pas sur le pianiste») têm por lema que o «cliente tem sempre razão» e que as modas são soberanas. O gosto pode esperar.
Sendo assim os gerentes das salas fazem o que podem - e a mais não são obrigados. Em muitos casos arriscam, mas sem convicção. No caso de «Trás-os-Montes» direi mesmo que o responsável pelo Satélite deu provas de alguma audácia. Mas para apostar num filme é preciso amá-lo e para o amar, aí está, é preciso compreendê-lo. E quem pode acusar os exibidores de não serem mecenas da modernidade?
E o público anónimo o que nos pede? Que façamos as nossas experiências mas no domínio do razoável, que sigamos a corrente, que deixemos a invenção, quiçá o génio, para mais tarde, para o instante em que a moda assim o aceite. A questão é pois absurda e no caso dos filmes torna-se um trágico dilema. É como se disséssemos a Shòenberg para não incentivar tão depressa a música duodecafónica, para ir fazendo pastiches de Mahler ou mesmo de Tchaikowsky, a Joyce para fazer uma versão reduzida do seu «Ulisses» - para contar a mesma «história» mas mais acessível. Tal atitude revela, pelo menos, uma completa e grave ignorância do que seja o fenómeno estético e uma ligeireza de espírito lamentável.
O cinema, dir-me-ão - tem sobrevivido a estes malentendido mas também é verdade que muitos cineastas ficaram pelo caminho e muitos filmes pela gaveta pelo facto de quem decide do seu sucesso (logo da sua viabilidade) ser o público (doce ilusão das plateias) serem mercadores sem qualidade. Que o digam Grifith, Stroneim, Dreyer, Oliveira, Keaton, Nicholas Ray, Sternberg, Orson Welles ou Dziga Vertov.
No caso português há, da parte dos responsáveis oficiais pela cultura que evitar o paternalismo, a demagogia e o dirigismo, para assumir a responsabilidade histórica de servir apenas de bom parteiro às obras futuras. O que exige algum risco e não pouca ciência, ou virá um novo António Ferro e outra «política de espírito» que não faz mais do que deixar ao «materialismo» grosseiro dos negociantes do celulóide a livre iniciativa, isto é, a livre opressão.

António Pedro Vasconcelos

Jornal Expresso, Revista, pág. 22, de 25 de Junho de 1976 (secção "Alternativas", coordenação de Helena Vaz da Silva)

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

boa tarde, gostaria de saber quem é o autor e intérprete do (único) trecho musical de Trás-os- Montes

Tiago

5:44 da tarde  

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