028. PAINÉIS DO PORTO
«PAINÉIS DO PORTO» - um documentário vivo sobre a capital do Norte – deve-se ao patrocínio dos Serviços Centrais da Câmara Municipal do Porto que, com tal iniciativa, presta à cidade, à sua beleza e à sua gente não só uma homenagem como um relevante serviço dando-a a conhecer tal qual é, vista pelos olhos de um poeta atento às realidades, isso é, com beleza e com uma verdade simples.
O poeta é o seu realizador mais responsável, António Reis, assistido desta feita por César Guerra Leal. Reis, poeta da cidade do trabalho, de granito sujo e de beleza escondidas e fugidias aos olhares provincianos dos «turistas de ocasião» entusiasta dos cinema experimental, ex-assistente de Manuel de Oliveira, espectador atento do cinema e da vida deve ser, de facto, o principal responsável por «Painéis do Porto», onde se sente o sentido de captação poética do humano que os seus «Poemas de quotidiano» nos revelam.
De um modo diverso do que acontece com «O Pintor e a cidade» - o magnífico documentário de Manuel de Oliveira que pode considerar-se uma descrição poética do Porto - «Painéis do Porto» é aquilo a que, com mais verdade, poderíamos chamar uma reportagem poética. E na diferença entre descrição e reportagem encerra-se toda a profunda dissemelhança entre o filme de Reis e o de Manuel de Oliveira.
É notável, particularmente na primeira metade do filme, a magnífica selecção de material visual conseguida: jogo acertado dos movimentos de uma câmara irrequieta e dos ângulos de filmagem, ora contemplando o assunto, ora procedendo a uma descrição correcta, cheia de sugestões, detalhando com oportunidade e eficácia, ora sublinhando o pormenor anedótico ou característico, ora focando o típico sem o explorar, ora transfigurando a realidade em poesia, em símbolo, sem o trair... Contrastes constantes, «raccords» expressivos que são linguagem, que falam, que sugerem... E, lentamente, o Porto passa todo inteiro pelos nossos olhos e o granito sujo, as pedras de armas patinadas, a talha aberta a cinzel dos claustros, os azulejos oitocentistas que nos falam de um tempo que passou, encadeiam-se com a sinfonia de betão armado dos modernos edifícios, com os seus azulejos abstractos, com a serena majestade dos blocos habitacionais gigantes... A tradição afiança uma evolução dinâmica que é vida, que é o verdadeiro pulsar de uma comunidade humana. António Reis não se deixou cair na tentação do romantismo ou no bonitinho do efeito formal rebuscado: mantém vivo e tenso o tom de reportagem, não se limitando ao que se vê mas procurando ir mais longe, procurando as raízes do que existe.
«Painéis do Porto» não é um estojo de virtudes. Tem defeitos, quebras de ritmo, desacertos de montagem, que nos pareceram mais sensíveis na segunda parte do filme. Mas este é o primeiro filme de António Reis, filme feito com entusiasmo, bom gosto e sensibilidade visual apurada, talvez até hipertrofiada – o que explica certos desequilíbrios.
Balanço final: há que contar com António Reis para o cinema português.
Francisco Xavier Pacheco – Filme, n.º 61 (Director: Luís de Pina), pág. 19, 15 de Abril de 1964.



















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