quinta-feira, Março 09, 2006

141. "TRÁS-OS-MONTES" - Crítica de José Camacho Costa

[Estreia no cinema Satélite, Lisboa - Sexta-feira, 11 de Junho de 1976]

DUM PAÍS DO LONGE

Há filmes que o são de homem, outros que o são de mulher.
Há ainda os castos, assexuados, derramando pureza, encerrados na sua virginal inutilidade, anti-sépticos, brancos, hospitalares. Odor a coisas mortas, putrefactas.
Este é o filme de um homem e de uma mulher. É de amor que se trata. É de loucura e dúvida que se tece. É de angústia que se eleva. É uma festa de sangue, em raiva e desespero; como dois corpos que se querem, e se descobrem, e se dão; em dor e espanto; e alegria. Como uns olhos de menino num orgasmo de pergunta.
E de súbito somos nós, aqui.
Um olhar que se descobre em memória, e se quer memória de coisas feitas e vividas. Sonho de coisas sonhadas e sentidas.
Gesto. Palavra. Corpo.
É dum país do longe, com sombras pelos rios, sussurros, vento; cansado, já velho, partido, ido; país só de lembranças, de comboios, de cristais nos pulmões; de cola em carta molhada com lágrimas. E sempre o amanhã no voltar e o hoje no ir. E luto. Mulher-herói que é fêmea e imagem do homem na distância. E chão. E dor que se entorna em grito e se transforma em fumo. Mãos que se enrodilham sobre o ventre já esquecido do parto que o rasgou, sonhando a camisa suada e o suor na cama que se faz no amor. Lume. E dança que é sexo de homem erecto em serra-mãe. Sol que se veste em cabeça de menina fitas roxas.
É dum país do longe mas que é cá.
Um filme. O filme. A inteligência e a coragem, isto é a coragem de ser inteligente. Trás-os-Montes. António e Margarida.

José Camacho Costa

Revista ISTO É ESPECTÁCULO, n.º 1, pág. 44, Setembro de 1976 (Director e proprietário: Lauro António)

terça-feira, Março 07, 2006

140. "TRÁS-OS-MONTES" - Crítica de Mário Damas Nunes

[Estreia no cinema Satélite, Lisboa - Sexta-feira, 11 de Junho de 1976]

A Terra, o Povo, a Lenda

O filme português “Trás-os-Montes” ia tendo passagem meteórica por uma sala comercial de cinema. Incapaz de alertar, à partida, as mais amplas camadas da população a que verdadeiramente se destina, “Trás-os-Montes” suportou todos os ataques, resiste ao longo de várias semanas. Poderíamos tentar explicar as razões, descobrir causas, encontrar motivos. Preferimos tão só falar de um filme, de um belo filme de António Reis e Margarida Martins Cordeiro, obra máxima de dignidade popular, de recolha histórica, de leitura política, de enquadramento estético e poético.
Devolver a Trás-os-Montes o seu povo e a sua cultura, a sua vida sofrida na carne através dos séculos (milénios), é uma tarefa profundamente política e, acima de tudo, patriótica. Tentar um retrato que se perde na noite dos séculos, tratá-lo à luz contemporânea, perspectivá-lo política, social e culturalmente seria obra, talvez, para uma vida. Os autores resumem mais de duas dezenas de horas de filmagens num produto final condensado, sintetizado, com toda a força que a razão exige, com toda a humildade que a grandeza de um povo lhes pede, em duas horas de antologia no cinema português.
“Trás-os-Montes” é a descoberta de um admirável mundo velho, mundo de história que as sucessivas colonizações e os sucessivos povos foram atravessando, sem no entanto conseguirem adulterar, transformar, a vontade determinado desse povo. No entanto “Trás-os-Montes” não aparece como um filme fácil (António Reis diria que “será um filme difícil, mas a vida desse povo também não é fácil...”), não remete o espectador para a posição passiva habitual de consumo puro e simples de hora e meia de alienação. Antes vai exigir de nós uma ampla participação, obrigando-nos a uma atitude permanentemente atenta e crítica, fazendo-nos acompanhar uma viagem que não é de ficção, antes entrecruzando estas duas formas, numa busca constante ao imaginário de todo um povo e de cada um de nós.
“Trás-os-Montes” é ainda um dos mais belos discursos políticos a que temos assistido. Sem frases demagógicas. Sem “librete” panfletário. Antes pela voz, vida e olhar de um povo esmagado pela opressão, exploração, pela miséria, por todo um sofrimento de partidas sucessivas a que foi sujeito pela emigração como solução última para uma vida, que no seu país não tinha futuro. E aqui, “Trás-os-Montes” é ao mesmo tempo um filme sobre o passado, o presente e o futuro, traduzido na vida, experiência e imaginação das crianças, narradores e intérpretes de uma aventura que cruzam os tempos como num conte de fadas.

Mário Damas Nunes

Revista ISTO É ESPECTÁCULO, n.º 1, pág. 43, Setembro de 1976 (Director e proprietário: Lauro António)

domingo, Março 05, 2006

139. "TRÁS-OS-MONTES" - Crítica de João Lopes

[Estreia no cinema Satélite, Lisboa - Sexta-feira, 11 de Junho de 1976]

TRÁS-OS-MONTES

Nem a chuva amainou ainda, nem o sudoeste deixou de soprar em rajadas fortes, nem é menor o frio que há pouco sentia. Porém, ao olhar pela vidraça, como quem espairece o ânimo alquebrado por um momento de desânimo ou talvez de cansaço, que vejo? Que esperança é esta que sinto correr com o meu sangue?
Desculpai a confidência: à chuva, ao vento, as roseiras que podei em Dezembro rebentam já, e um cacho de glicínias – um só cacho ainda – antecipando-se em promessa do que será, em breve, um lençol lilás...
Portugueses somos, amigos. É bom sabê-lo – e assumi-lo.

Joel Serrão

Tendo por objecto o modo de vida, o desejo é sempre feudal.
Roland Barthes

Não há prefácio possível a um filme que se organiza e se propõe, ele próprio, como prefácio a uma memória cujo regaço está por preencher. Como falar dessa sedução em que a nossa história nos envolve? Multiplicando o eco final do grito branco e ateu de um comboio, poderíamos apenas sugerir o cansaço, as trevas e a persistência do olhar.
Estamos em 1976 – é, pelo menos, assim que referenciamos e delimitamos o espaço histórico que faz o nosso fazer a história. É tarde, muito tarde para evitar as lágrimas que nem sabemos. Mas é manhã, madrugada ainda, por todos os jardins e orvalhos escavados além dos montes do nosso desejo.
Não admira que digam que somos um povo religioso. O nosso conhecimento de nós e de nós outros tem sido sabido e ignorado por entre presságios de mal disfarçadas conspirações. A nossa cultura, a rede de diferenças que conciliam e dividem as nossas culturas, é um templo de muitos inexplorados, um corpo sem margens, casto e dorido.
É talvez por isso que o regime de “Trás-os-Montes” é, por excelência, a perversão, a contínua resolução do natural no artificial, do individual no colectivo, do real no onírico, do cultural noutro cultural. Lembremos as crianças, se é que sabemos lembrar as crianças.
A arte, o cinema, o cinema neste Portugal, parece estar historicamente condenado a ser a tela irreal onde se vem incrustar a lava vertida nessa fricção profunda, uterina, esquecida – cultura contra cultura, povo contra povo, cinema contra cinema.
Somos diferentes nas nossas diferenças e é preciso que esse ser diferente marque o nosso movimento fugaz pelos pinhais da história. Se assim não for, estaremos apenas a ser diferentes no desconhecimento das nossas diferenças.
Tudo isto para dizer que “Trás-os-Montes” não é um filme que mistura ficção e reportagem, objectividade e subjectividade, passado e presente. Estamos cansados (e o que tem sido esta cultura com que escrevemos senão o espectáculo, ora patético, ora deprimente, desse cansaço?) dos esquemas, das frases, das certezas, da falta de pudor, do medo de parar dos profissionais da cultura. “Trás-os-Montes” é um filme sobre Portugal e Portugal.
Da finalidade, da eficácia, da oportunidade, da mensagem, da acessibilidade ou da dificuldade de “Trás-os-Montes” não sei senão não saber o que isso seja e guardar silêncio. De “Trás-os-Montes”, eu diria, não sem a sombra de uma dor que não sei explicar, que é um filme que me ensina a conhecer o meu corpo e a respeitar os corpos.
Que sabemos nós do nosso desejo? E “Trás-os-Montes” é isso mesmo, uma encenação do desejo, isto é, o desejo de uma outra encenação – distante, fluida, absoluta e redonda, numa palavra, impossível. Lá, onde Portugal é cicatriz adiada.

João Lopes

Revista ISTO É ESPECTÁCULO, n.º 1, pág. 42, Setembro de 1976 (Director e proprietário: Lauro António)