domingo, Janeiro 29, 2006

136. "TRÁS-OS-MONTES" - Crítica de João Bénard da Costa

[Estreia no cinema Satélite, Lisboa - Sexta-feira, 11 de Junho de 1976]

Por um filme

A única solidão é aquela que não tem passado.
Agustina Bessa Luís

De Trás-os-Montes, filme de António Reis e Margarida Cordeiro, disse Jean Rouch que inaugurava um novo cinema. Coisa de um tipo se pôr de joelhos, terá dito também. A coberto deste magister dixit as línguas dos críticos foram-se, finalmente, desatando e a imprensa do fim da semana passada começou, finalmente, a entoar as suas loas. Loas ou requiems? Pode-se perguntá-lo, porque, entretanto, o filme deixava a sala onde se a exibira, durante uma semana, ignorado pelo público, esquecido pela crítica. Esta, como de costume e, como a propósito de uma outra obra grande notava Eduardo Lourenço, «deixa morrer antes para corar depois». Tudo que agora se diga ou faça em favor dessa coroação – e esta tardia iniciativa de o EXPRESSO é bem um exemplo – é mais produto do vosso remorso do que medida da vossa atenção. E tanta gente viu o filme a tempo de com tempo dele falar.
Pede-se-me, agora, um curto depoimento. Para que possa ter alguma utilidade, é preciso que haja onde ver o filme, o que implica a sua reposição. Como já se fez para Benilde ou Brandos Costumes. Há que teimar e não deixar que se perca assim o que é um dos grandes actos de amor e criação que a arte feita por portugueses nos tem dado.
Para que se não perca uma obra que é, também, para um povo e para um país à procura de si próprios, uma das poucas pedras do caminho que nos pode ajudar a reencontrar a direcção.
Não me aventurarei a tentar explicar porque, no curto espaço de que disponho. Mas usarei o resto dele a dar duas pistas:
I – Falei das pedras do caminho. Lembram-se do conto em que as crianças as deixavam cair no chão para não se perderem? Velhas sagas, velhas lendas. Mas o essencial da busca de António Reis e Margarida Cordeiro está por essas bandas e tem que ver com esses medos. Ir buscar ao tempo, ao «era uma vez», o que, contado, recupera na imaginação o que nela sempre há de memoria. Neste filme, deixa de ser possível dividir uma de outra, como deixa de ser possível separar a imagem do imaginário, pela dupla abertura e pela dupla evasão que cada plano introduz ao que está antes (por vezes, muito antes) e depois (por vezes, muito depois) dele. A imagem reentra no imaginário. Fugindo ao pitoresco, ao folclórico, à redução etnológica, o que Trás-os-Montes nos propõe é o encontro com o real imaginário de uma cultura em que esses dois termos nunca são antitéticos. É o convite a uma viagem que vai até ao fundo dessa fusão, utilizando uma linguagem – como é a cinematográfica – cujo mais fundo sentido nunca foi outro senão o de a dizer. E utilizando-a com o mais obstinado rigor.
II – Assumindo as duas vertentes do passado, Trás-os-Montes é, por via disso e em toda a acepção da palavra, um filme de resistência. Na medida em que desarruma o campo das certezas ou ideias feitas (quer sobre o discurso que usa, quer sobre o que esse discurso nomeia) e na medida em que nos faz descobrir as vertiginosas possibilidades da liberdade mais cercada e mais frágil. Se a primeira acepção é talvez acessível a muito poucos, a segunda invade de tal forma cada plano deste filme que a sua evidência provoca abundantemente as reacções de quem já não pode ou não quer reconhecer os muros da prisão e a espantosa beleza da incessante luta para os derrubar. Nesta medida, a ternura deste filme é tão grande como a sua violência e é isso que muitos poucos suportam. Para falar dos que não renunciaram e da sua solidão, António Reis e Margarida Cordeiro inventaram o cinema da memória, da solidariedade e da não-abdicação.
De quanto pode ser dito sobre a nossa morte-vida, por quem dela vive e morre, este filme nos fala.
Peço desculpa de não ter conseguido ser mais claro.

João Bénard da Costa

Jornal Expresso, Revista, pág. 22, de 25 de Junho de 1976 (secção "Alternativas", coordenação de Helena Vaz da Silva)

sexta-feira, Janeiro 27, 2006

135. "TRÁS-OS-MONTES" - Crítica de Mário Dionísio

[Estreia no cinema Satélite, Lisboa - Sexta-feira, 11 de Junho de 1976]

"Trás-os-Montes" um acto de militância autêntica

É tristemente sintomático que um filme como Trás-os-Montes tenha passado despercebido, já não digo do que se chama grande público, mas daquele outro, ao que parece muito vasto, que se diz empenhado na transformação deste país. Ou quase só tenha sido passageiramente referenciado em escritos e conversas mercê da violenta reacção que provocou na terra que retrata e da qual o menos que se poderia esperar era tê-lo recebido com o mesmo amor com que visivelmente foi criado.
Não foi numa salinha modesta de algum bairro afastado que Trás-os-Montes passou, mas numa sala bem conhecida, no centro da capital. Aí se estreou com dois terços da casa, aí foi exibido alguns dias para cadeiras desertas, daí quase chegou a desaparecer no meio da maior indiferença. Dum cinema à porta do qual se vendem jornais e revistas que tanto falam da reforma agrária, mas não tanto pelos vistos como seria necessário ou não de modo que fizesse acorrer o público a ver um filme que tem muito mais relação com ela do que pode parecer aos que supõem, para usar uma frase célebre, ser possível fazer crescer a planta puxando-lhe pelas folhas.
Que caciques prontamente aproveitem os ventos de feição e facilmente arrastem populações que têm nas mãos para o crime de insultarem e ameaçarem o que pode abrir-lhes os olhos e a sensibilidade para a sua miséria e para a sua grandeza, não é isso que espanta. Quando se impedem certos candidatos de falar, se fazem explodir bombas em locais de trabalho político ou de cultura, é exactamente do mesmo que se trata. Mas que Revolução é esta, em que tão pouco se atenta no que poderosamente contribui ou poderia contribuir para acordar a consciência daqueles que têm de fazê-la? Em que tão vagamente se estimula e se defende a revolução de um povo na sua existência mais concreta e mais profunda, de que seria forçoso partir?
Tive o prazer de ver o filme de António Reis e Margarida Cordeiro ainda na fase de montagem. Vi-o, depois de pronto, duas vezes. E, como sempre acontece com as grandes obras, o encantamento não se esgotou nem está em vias de esgotar-se. Porque há nele um manancial de humanidade na verdade inesgotável. Da primeira à última imagem, Trás-os-Montes é um acto exemplar de rigor e de honestidade na pesquisa, de coerência e sobriedade no discurso, de militância autêntica, de solidariedade, de adesão interior. Que em vão se buscaria numa fala ou num plano demagogicamente afirmativos duma superficial exortação à acção, que por isso mesmo não age. É no filme todo e no que ele em nós desperta que essa exortação existe, sem uma pausa nem qualquer concessão, desde o mergulho nas raízes seculares à angústia presente dum povo que obedece a leis que não entende e em cuja elaboração nunca participou: desde a Cantiga da Garvaia ao comboio que rasga as montanhas com o seu grito despedaçante e tudo o que ele denuncia. E a grande voz dessa exortação é a da própria beleza lucidamente construída - na imagem, no som, na cor -, uma beleza que encanta, sim, mas que, encanta, mobiliza. E é essa a chave de toda a arte revolucionária.
Há quem o não veja? Assim parece. Há quem suponha que a beleza vem depois, que a arte vem depois. Mas depois de quê, se a Revolução, ou é transformação dos homens ou não é mais que caricatura de mudança? Se os homens só transformam transformando-se e nessa transformação a acção da cultura, nomeadamente a da arte, tem uma função insubstituível, não posterior mas simultânea?
Devo três surpresas a António Reis, todas elas intimamente ligadas a um longo itinerário de adesão aos explorados, aos desprezados, aos criminosamente esquecidos e ao impenitente fervor de contribuir para revelar uma grandeza oculta que é a raiz da sua força possível. Da força indispensável.
Uma, há perto de quinze anos, que se chamou Poemas Quotidianos; outra, mais recente, que foi o seu inquietante e protestativo Jaime; outra, enfim, que é este Trás-os-Montes, filme de importância excepcional, não só no panorama português, e impossível de esquecer para quem insista em pensar a nossa actualidade em termos de Revolução.

Mário Dionísio

Jornal Expresso, Revista, pág. 22, de 25 de Junho de 1976 (secção "Alternativas", coordenação de Helena Vaz da Silva)

quarta-feira, Janeiro 25, 2006

134. "TRÁS-OS-MONTES" - Crítica de António Pedro Vasconcelos

[Estreia no cinema Satélite, Lisboa - Sexta-feira, 11 de Junho de 1976]

As leis de Kafka

Chamfford escreveu um dia, com o cinismo olímpico com que se defendia das agruras e dos dissabores que a vida lhe tramava, que era preciso escolher entre «amar as mulheres ou compreendê-las». Quem tomou à letra este desabafo arriscou-se a não compreender muitas mulheres que julgou amar e a não amar muitas mulheres que julgou compreender.
É cómodo optar pelos sentidos ou pela razão em lugar de procurar um sentido à razão e uma razão para os sentimentos.
Creio que, com o cinema esse divertimento frívolo de espectadores ociosos se passa um pouco o mesmo e que nos arriscamos a não amar muitos filmes por não tentar compreendê-los e a não compreender outros por nos deixarmos seduzir pelas graças exteriores com que eles se vestem para nos enganar. Vai-se ao cinema como se vai às mulheres. Tais prazeres, penso eu, são prazeres de preguiçosos.
Eis o drama com que se debate quem como António Reis e Margarida Martins Cordeiro fez um filme com amor e inteligência e a quem muito do público vota uma paciente desatenção. Eis, de um modo geral, o que sucedeu ao melhor cinema português sobretudo depois do 25 de Abril. Refiro-me a «Benilde» e aos «Brandos Costumes» porque pela qualidade e importância do resto não ponho as mãos no fogo. Para amar um filme como «Trás-os-Montes» é preciso antes de mais compreendê-lo e para o compreender é preciso dispor-se a amá-lo.
O drama é que, depois do 25 de Abril (as razões ficam para outra altura) nada foi feito para encontrar outras formas de circulação dos filmes portugueses que, sem os isolar, lhes permitam encontrar um novo espaço e um novo público que não esse dominado pelos distribuidores e exibidores cuja única regra, como não pode deixar de ser em sistema capitalista é, já o escrevi, o «lucro máximo e o sucesso imediato». A não ser o «São Luís», emergência que salvou muita coisa, e outras iniciativas pontuais do actual Director Geral da Acção Cultural, nada há que permita que um filme português como um filme de Straub, de Godard ou de Duras, tenha uma chance razoável de chegar ao público.
Os distribuidores e exibidores, de um modo geral, por melhor que seja a sua boa vontade («ne firons pas sur le pianiste») têm por lema que o «cliente tem sempre razão» e que as modas são soberanas. O gosto pode esperar.
Sendo assim os gerentes das salas fazem o que podem - e a mais não são obrigados. Em muitos casos arriscam, mas sem convicção. No caso de «Trás-os-Montes» direi mesmo que o responsável pelo Satélite deu provas de alguma audácia. Mas para apostar num filme é preciso amá-lo e para o amar, aí está, é preciso compreendê-lo. E quem pode acusar os exibidores de não serem mecenas da modernidade?
E o público anónimo o que nos pede? Que façamos as nossas experiências mas no domínio do razoável, que sigamos a corrente, que deixemos a invenção, quiçá o génio, para mais tarde, para o instante em que a moda assim o aceite. A questão é pois absurda e no caso dos filmes torna-se um trágico dilema. É como se disséssemos a Shòenberg para não incentivar tão depressa a música duodecafónica, para ir fazendo pastiches de Mahler ou mesmo de Tchaikowsky, a Joyce para fazer uma versão reduzida do seu «Ulisses» - para contar a mesma «história» mas mais acessível. Tal atitude revela, pelo menos, uma completa e grave ignorância do que seja o fenómeno estético e uma ligeireza de espírito lamentável.
O cinema, dir-me-ão - tem sobrevivido a estes malentendido mas também é verdade que muitos cineastas ficaram pelo caminho e muitos filmes pela gaveta pelo facto de quem decide do seu sucesso (logo da sua viabilidade) ser o público (doce ilusão das plateias) serem mercadores sem qualidade. Que o digam Grifith, Stroneim, Dreyer, Oliveira, Keaton, Nicholas Ray, Sternberg, Orson Welles ou Dziga Vertov.
No caso português há, da parte dos responsáveis oficiais pela cultura que evitar o paternalismo, a demagogia e o dirigismo, para assumir a responsabilidade histórica de servir apenas de bom parteiro às obras futuras. O que exige algum risco e não pouca ciência, ou virá um novo António Ferro e outra «política de espírito» que não faz mais do que deixar ao «materialismo» grosseiro dos negociantes do celulóide a livre iniciativa, isto é, a livre opressão.

António Pedro Vasconcelos

Jornal Expresso, Revista, pág. 22, de 25 de Junho de 1976 (secção "Alternativas", coordenação de Helena Vaz da Silva)

terça-feira, Janeiro 24, 2006

133. "TRÁS-OS-MONTES" - Crítica de Jorge Listopad

[Estreia no cinema Satélite, Lisboa - Sexta-feira, 11 de Junho de 1976]

Atrás dos "Trás-os-Montes"

O filme português «Trás-os-Montes», de que todos dizem maravilhas e poucos querem vê-las, encerra, já por isso, um equívoco ou um problema. Se os intelectuais e os artistas, ao dizerem maravilhas têm razão, o público é burro, cego e mouco. Se o público não é burro, nem cego nem mouco, os intelectuais ou se enganam ou exageram. Haverá uma terceira via? Talvez haja.
É bom não esquecer que o realizador António Reis, é o autor de «Poemas Quotidianos», essa poesia excepcional, de lirismo estenográfico.
É bom não esquecer ainda que António Reis foi assistente de um outro filme também sobre Trás-os-Montes, de que, porém, nem todos disseram maravilhas, embora sempre poucos quisessem vê-las, o «Auto da Primavera», de Manuel de Oliveira, que soube, pela imagem rigorosa, dar ao folclore ritual a dimensão épica.
Se o actual filme de António Reis fosse, na verdade, «polémico», como ele próprio adverte na sua introdução falada enquanto o écrã está escuro (sintomático: as palavras invisíveis sobre a imagem ausente), o seu polemis, a sua guerra, seria a guerra civil dos discursos interiores. Esses, porém - nunca claramente enunciados, numa mistura que não é osmose, num desejo preconcebido de que a imagem sempre se deva ultrapassar a si própria - põe-nos perante uma miscelânea obviamente não conceptual, feita do discurso lírico visível (do poeta), do discurso épico esboçado (do antropólogo dos ritos, do sociológico), e do discurso dramático (da mise-en-scène teatral), e que, aliás, constitui os momentos mais frágeis, uma vez que se sente a sua mitologia artificial, como que intrusa no mundo de António Reis.
Os que admiram «Trás-os-Montes», ou se identificam com um dos discursos presentes, ou não concebem o que, afinal, sabe qualquer espectador médio, pela intuição: que o cinema é uma linguagem, isto é, um discurso imaginado.
Fundir os vários discursos num, como aconteceu às vezes, por exemplo, nos filmes de Pasolini, de antropologia bárbara, sincrónica e diacrónica, é uma aposta difícil. Tal aposta, sem dúvida, honra o cinema português: concretizando o que chamou «Trás-os-Montes», António Reis (e Margarida) aproximou-se do seu futuro filme, até tecnicamente mais acabado. e que terá público.
Eis a minha aposta.

Jorge Listopad

Jornal Expresso, Revista, pág. 22, de 25 de Junho de 1976 (secção "Alternativas", coordenação de Helena Vaz da Silva)

domingo, Janeiro 22, 2006

132. "TRÁS-OS-MONTES" - Entrevista a Eduardo Prado Coelho como Director Geral da Acção Cultural

[Estreia no cinema Satélite, Lisboa - Sexta-feira, 11 de Junho de 1976]

Oficialmente o que pode (e quer) fazer-se?

Pedimos ao Director Geral da Acção Cultural que respondesse às seguintes perguntas:
1. «Brandos Costumes», «Benilde» e agora «Trás-os-Montes» estiveram curtíssimas passagens pelos ecrãs. Admito que, como nós, considera qualquer deles um filme de qualidade, o que ocorre dizer a este respeito?
2. Poderá atribuir-se a «culpa» do que aconteceu com «Trás-os-Montes»
a) ao filme?
b) ao produtor e exibidor?
c) ao público?
d) ou deverá pôr-se a questão de outro modo?
3. Como Director Geral da Acção Cultural
a) que medidas já tomou?
b) que medidas entende dever tomar para que filmes como este possam continuar a ser livremente feitos e a terem condições de exibição que merecem?


1 – Se um filme é uma «obra importante», um filme nunca pode ter culpas. É o que é. Também os distribuidores-exibidores são o que são, segundo a lógica de um sistema. Quando ao público, ele está lá ou não está, com base em imprevisíveis fios de motivação.
Culpas? Em parte, a própria crise da arte moderna que faz que essa modernidade se viva em ruptura, libertando um espaço que uma arte dita de massas tem de preencher. É aí que surgem as pornografias a enunciar no plural: porque não vejo diferença enquanto pornografia, entre o «filme de guerra» dito socialista, em que determinados intérpretes mimam a dor para activarem o consumo, e o «filme de sexo» dito pornográfico, em que determinados intérpretes mimam o prazer para incentivarem o lucro.
Quanto a mim, a raiz do problema é de ordem pedagógica. É necessário que a linguagem fílmica se aprenda, a ler e a escrever, nos bancos, ruas ou jardins de uma qualquer escola. É necessário alfabetizar em cinema. Mas os textos que se produzem como material de alfabetização são textos didácticos. Um texto estético que pretende alfabetizar é quase sempre um mau texto.

2 – a) Se pensarmos em termos de indústria, é necessário produzir filmes diferentes.
Se pensarmos em termos culturais, ou há filmes de qualidade, ou não há, e é tudo. O mais é dirigismo.
b) De acordo com a necessidade de impor uma legislação que tenha em conta a existência de um cinema português de nível (que o há).
c) É evidente que a questão se pode pôr de outros modos. Parte-se do pressuposto que qualquer pessoa tem necessidade de cultura. Mas de que cultura, e em que funções desta? Porque, a considerarmos na cultura uma função antropológica (quadro de valores em que se vise), uma função lúdica (o divertimento como necessidade de outra coisa), uma função cívica (a cultura imposta em nome de) e uma função libidinal (a cultura como relação com o Outro) – temos de verificar que a modernidade cultural apenas joga com a última destas funções, e das outras se divorcia, encontrando suporte para a sobrevivência na persistência de uma «cultura de massas» com função lúdica.

3 – A Acção Cultural é apenas uma Direcção-Geral entre outras no âmbito de uma Secretaria de Estado (ou Ministério) da Cultura. Não lhe compete resolver problemas de fundo.
Apenas três observações:
a) enquanto não houver uma efectiva descentralização cultural, a difusão será sempre difícil;
b) enquanto o IPC (ou IPAC) não instituir as bases de um circuito complementar, o filme português terá dificuldades em «passar»;
c) as acções da Acção Cultural, uma vez estabelecida a nível mais amplo a rede de difusão, deverão continuar a ser o que têm sido: multiplicação de iniciativas, produção de acontecimentos, não procurando captar todo o público em toda e qualquer acção, mas tentando calcular para cada empreendimento o público específico a que se destina, e pretendendo estabelecer um gráfico política e culturalmente harmonioso na distribuição desses públicos.
Uma palavra final: filmes como estes continuarão a ser livremente feitos.

Eduardo Prado Coelho

Jornal Expresso, Revista, pág. 22, de 25 de Junho de 1976 (secção "Alternativas", coordenação de Helena Vaz da Silva)

sábado, Janeiro 21, 2006

131. "TRÁS-OS-MONTES" - Texto introdutório do dossier do Expresso dedicado ao filme

[Estreia no cinema Satélite, Lisboa - Sexta-feira, 11 de Junho de 1976]

Haverá lugar para um cinema paralelo

«Trás-os-Montes» de António Reis e Margarida Cordeiro é muito bom mas não há sala para o exibir. «As noites quentes de não sei quem» é muito mau mas esgota as lotações.
E «Trás-os-Montes» não é o primeiro a que isto acontece. Desde que, em Portugal, se começou a produzir cinema novo que assistimos ao mesmo: o público foge do cinema português e os exibidores, por isso mesmo, fogem dele também. E temos assim «Brandos Costumes», «Benilde» e agora «Trás-os-Montes» a passar à tangente a primeira semana de exibição.
Os críticos bem escrevem que os filmes são bons. Os produtores bem pedem ao público que lá vá por favor... O público tarda... e o exibidor não arrisca. E os filmes, depois de meteórica carreira, ficam na prateleira, na esperança – também vaga e ainda longínqua – de que exista um organismo que ao menos faça a sua promoção lá fora, nesse estrangeiro sequioso de filmes portugueses que lá não chegam sabe-se lá porquê...
Será de facto a tardia consagração da cinemateca a única esperança para estes filmes que tentam abrir caminhos novos ao cinema português? O que estará mal?
Serão os filmes que devem ser diferentes? Mas diferentes, como? Mais fáceis, mais divertidos? Deverá exigir-se a António Reis que se torne Jerry Lewis ou o Manuel de Oliveira que cinematize livros policiais?
Serão os distribuidores e exibidores que se portam mal? Mas o que será, neste caso, portar-se bem? Suportar alegremente centenas de contos de prejuízo com casas vazias quando as podem ter cheias de retirando o filme? Enquanto se mantiver a lógica capitalista quem lhes atirará a primeira pedra?
Será o público que é estúpido, superficial e mal educado? É o que há, não temos outro... e o cinema faz-se para ele. Então?
Então há que inventar condições paralelas para um cinema que, por enquanto, é paralelo. Há que inventar condições de criar para um cinema que é fundamentalmente criação. Há que inventar condições de liberdade para um cinema que vive de livremente se fazer.
Porque acreditamos que «Trás-os-Montes» é caminho aberto para esse cinema paralelo, para um cinema que deixa de ser espectáculo para ser convivência, com-paixão - a máquina por dentro das caras e das casas, nunca por fora -, lhe dedicamos esta página.
«Trás-os-Montes» esteve para sair do Satélite ao fim da primeira semana. Razões? O exibidor responde com factos:
«Porque para uma lotação diária posta à venda de 832 lugares (208 por sessão x 4), teve a seguinte frequência:
Estreia dia 11 à noite – 49 pessoas
Sábado » 12 » » - 127 »
Domingo » 13 » » - 185 »
Segunda » 14 » » - 84 »
Terça » 15 » » - 160 »
Quarta » 16 » » - 172 »
Quinta » 17 » » - 633 »
Entretanto, o apoio oficial que se atrasara chegou (a Direcção Geral da Acção Cultural e o MEIC garantem a compra de um número fixo de bilhetes) e o filme continuará a sua carreira nas sessões das 19 horas no Satélite. Assim o público poderá, sem que o empurrem nem o insultem, ir devagar descobrindo por si que se tivesse perdido «Trás-os-Montes» teria perdido alguma coisa

n/assinado

Jornal Expresso, Revista, pág. 22, de 25 de Junho de 1976 (secção "Alternativas", coordenação de Helena Vaz da Silva)

sexta-feira, Janeiro 20, 2006

130. "TRÁS-OS-MONTES" - Crítica de Jorge Leitão Ramos

[Estreia no cinema Satélite, Lisboa - Sexta-feira, 11 de Junho de 1976]

Trás-os-Montes

Um filme, isto é, imagens e sons organizados a passarem 24 vezes por segundo, pode, de repente, ultrapassar essa rua simples condição e ascender ao nível do símbolo, da arma, do facto social e político importante.
Tal é o caso, neste momento, de «Trás-os-Montes».
E no entanto dir-se-á, à primeira vista, paradoxal que tal aconteça com um filme onde não há armas, nem ocupações de terras, nem operários em greve, nem esquerda em movimento, nem nada daqueles sinais exteriores e aparentes que levam as pessoas a rotular um filme de «político», de «interveniente».
Foi no entanto deste filme que a direita pediu a pura e simples destruição. Foi este filme que o conhecido órgão da Imprensa regional «Mensageiro de Bragança» (edição de 7/5/76) classificou de sinistro, de farsa, de afronta, de faccioso, de alienante, de macacada e de outros epítetos afins. E afinal de contas, porquê?
Porque «Trás-os-Montes» é, sem reserva um acto de amor.
Acto de amor por um povo, por uma terra, por uma cultura.
Porque «Trás-os-Montes» grava, indelevelmente, os sinais de uma resistência secular, as pedras, as lendas e os rostos de um Nordeste cadinho de antigas civilizações, espaço concreto onde se fica e se parte, se vive e se morre. Porque, finalmente, «Trás-os-Montes» é um filme que fala dos explorados e dos esquecidos como nunca ninguém falou neste País, sem paternalismo, sem condescendência, antes com o calor fraternal de quem solidário se sente, companheiro se afirma. Daí a verticalidade, a firmeza, desta obra que se não limitou a registar, a olhar, mas soube, previamente compreender uma realidade, amá-la, e só depois sobre ela se debruçou, atenta, nervosa, calorosamente brilhante.
«Trás-os-Montes» é daqueles filmes que abrem portas. Poucos filmes o fazem em toda a História do cinema. Este é um deles. Nunca como aqui o cinema atingiu a completa fusão daquilo que artificialmente se convencionou chamar de «géneros». Divisão operada no campo do cinema como se o real (o real do filme, entenda-se) fosse espartilhado e cindível em pequenas unidade autónomas. António Reis e Margarida Martins Cordeiro escolheram a globalidade, o filme total. Por isso «Trás-os-Montes» não é nem documento nem ficção, não é prova nem poesia. »Trás-os-Montes» é um filme abertamente inteiro, capaz de conter em si, em acabada unidade, todos esses vectores.
Esta película é ainda, por outro lado, um meticuloso trabalho sobre os materiais cinematográficos. A imagem e o som, claro, mas sobretudo o tempo, a duração, a exacta definição dos clímaxes e dos períodos de descontracção, das esperas e das angústia, da beleza ofuscante e da tristeza. Dir-se-ia que este filme materializa os próprios sentimentos, como transforma em poesia os facto duros e concretos. Dir-se-ia que «Trás-os-Montes» está no exacto instante em que tudo se queda, por entre rios e montes e gritos e partidas, todas as viagens sem regresso, os nossos sonhos e a urgência, a intranquilidade e por fim a paz dos amplexos de amor, os melhores.
Por tudo o que «Trás-os-Montes» levanta a direita teme-o.
Politicamente está provado (se necessário fosse) que a subversão da sociedade burguesa se pode fazer com a simplicidade de um gesto de amor de um povo. É que aí, nesse espaço concreto e vital, pressente-se uma força inaudita, insuspeitada por muitos, sabe-se das noites e das albas em que se chora, se aguenta e se resiste.

n/ assinado

Jornal Diário de Lisboa, Sete Ponto Sete, pág. 7, de 19 de Junho de 1976

quarta-feira, Janeiro 18, 2006

129. "TRÁS-OS-MONTES" - Crítica de António-Pedro Vasconcelos

[Estreia no cinema Satélite, Lisboa - Sexta-feira, 11 de Junho de 1976]

Trás-os-Montes
Satélite 15, 17, 19 e 21.30 h Para todos

À hora em que o leitor nos lê – hoje sábado de manhã bebendo tranquilo a sua bica numa esplanada – já muito provavelmente esta nota deixou de ser um conselho para ser apenas um remorso.
Imperativos do jornalismo (os prazos...) e contingências da bilheteira (as receitas...) parecem conjugar-se para que assim seja: E no entanto passou por Lisboa (e não diremos desta vez que foi o exibidor que não arriscou) um dos mais belos filmes do cinema português, uma das peças-chave da nossa cultura, um dos raros testemunhos que o 25 de Abril deu à luz.
«Trás-os-Montes» de António Reis e Margarida Martins Cordeiro dir-se-ia que é o trabalho de três anos se não fosse, muito mais do que isso, as idades de ambos multiplicadas ou, o que é mais correcto ainda, o trabalho sem idade de uma província remota – Trás-os-Montes – onde se perdeu a memória das dinastias, o que significa, por uma inversão em que o filme é fértil e que lhes dá o último sentido, que dos negócios do reino desapareceu a memória dessa «província».
Que o melhor cinema é a prosa dos poetas, era coisa que sabíamos cada vez que víamos um filme de Murnau ou de Nicholas Ray, de Renoir ou de Rossellini, de Rouch ou de Godard. Hoje, com «Trás-os-Montes» e depois de «Brandos Costumes» ou «Benilde» (atenção leitor do Porto, não perca!), passe o escândalo ou o desdém com que acolham o que dizemos (ria quem pode!) o cinema português começa a ser dos mais interessantes do mundo. Como se faz que «las gentes de la ciudade» se não dêem conta disso é coisa que só prova o que o filme por dignidade, não diz abertamente: como somos provincianos.
Quando em dialecto mirandês ouvimos um texto de Kafka sobre o rosto mudo e majestoso de um transmontano, falar-nos de uma terra que fica tão distante da fronteira como da capital, percebemos (se estivermos na sala para isso) que, por um desses fenómenos que faz do cinema a mais exaltante das artes, o discurso subitamente se inverte e, como num espelho, o som off devolve à imagem, por uma infinita e complexa dialéctica a que os antigos chamavam alquimia e a que Godard chamou montagem, uma carga de que ela julga desapossar-se. Aquele homem sentado, o olhar fixo sobre o horizonte, é um rei destronado; Trás-os-Montes é a capital usurpada e as leis verdadeiras sabe-as ele e sabem-nas as gentes, de uma memória imorredoira: são as que regem o movimento dos astros, dos cursos dos rios, as artes ancestrais da sobrevivência, os rituais infalíveis do sonho, os jogos das crianças, a arquitectura da paisagem, as tragédias quotidianas. De repente percebemos que foi a «capital» de que nos fala o texto de Kafka por voz interposta que perverteu com outros códigos essas leis originais que regiam as relações do homem com o mundo.
Não interessa acusar o público de ser boçal, diletante ou distraído, nem de nos consolarmos com as ideias da obra maldita, tirando dividendos futuros destas duas horas de projecção para os «happy few».
O cinema é decididamente vítima da sua popularidade, do seu circo. A modernidade em cinema não vai porém nessa direcção e a inteligência do filme de A. Reis e Margarida Cordeiro vai-se tornando evidente à medida que o filme se aproxima do fim. Tudo então se liga, as rimas completam-se, a montagem (dois anos de trabalho) revela o seu jogo fascinante: trata-se de justapor elementos visuais e sonoros e de separar outros que a memória sensível do espectador é chamada ao longo da fita a reconstruir. Então «Trás-os-Montes» - filme de etnólogo? filme de poeta? documentário ou ficção – aparece como aquilo que é: não seguramente a excursão turística a que nos convidam todos os documentários, mas uma viagem, como no «comboio» de Delvaux, como em Carrol, como Kafka, a um país onde a lógica parece inverter-se, para melhor nos revelar, pelo rigor dos sonhos, o fantático da realidade.

Como temíamos "Nordeste" saiu, ontem do cartaz. Para a semana procuraremos através de diversos depoimentos aprofundar o porquê desta meteórica passagem. Chamaremos entretanto, a atenção para o filme que o vai substituir: "Aquela Loira" de Jacques Bécker porventura o melhor filme deste autor. A não perder.

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Jornal Expresso, Revista, pág. 23, de 19 de Junho de 1976 (secção "Vá expressamente...", coordenada por Helena Vaz da Silva)